Get Out é muito mais que um filme de terror

Get Out (Corra! no Brasil) é a primeira obra dirigida por Jordan Peele, que ficou conhecido nos Estados Unidos pelo programa de esquetes cômicos Key & Peele, no qual dividia tela com seu colega de longo tempo, Keegan Michael Key. Peele sempre foi um fã de filmes de terror, e nunca escondeu que adoraria dirigir algo no gênero.

O filme conta a história de Chris (Daniel Kaluuya), um jovem rapaz negro que namora Rose (Alison Williams), uma jovem branca. O casal está se programando para visitar os pais de Rose, que não sabem que a filha está namorando um negro e Chris teme que isso seja um empecilho na relação de ambos. A trama toma um rumo mais obscuro e violento quando o jovem começa a perceber que há algo errado com a família de sua namorada. Torcemos por Chris “dar o fora” de lá durante os 103 minutos de filmes.

Mas Get Out é muito mais do que um agoniante filme de sustos…

Daniel Kaluuya é Chris Washington e Allison Williams é Rose Armitage.

Get Out é uma grande produção que tem como grande base da sua trama o racismo. Relacionamentos inter-raciais (ainda) causam polêmicas em 2017 (!!!), e o medo de Chris ao encontrar os pais de sua namorada branca é o mesmo de inúmeros jovens negros ao redor do mundo, que são descriminados pela sua cor de pele.

Todas as ações e diálogos dos personagens brancos em Get Out tem um quê carregado de preconceito racial. Há cenas — com toques de humor irônico— que refinam as metáforas de Peele entre racismo e terror, como na festa dada pelos pais de Rose, que contam com a presença apenas de brancos idosos — a festa inclusive, tem uma importância para a trama, sendo o principal elemento do plot twist.

Coisas que você pode não ter percebido

Como todo filme nos dias de hoje, Get Out também tem os seus easter eggs e pequenas curiosidades escondidas que passam despercebidamente na tela.

Empatia e nada de registros

Empatia não é um sentimento mostrado por Rose quando ela atropela um veado a caminho da casa dos seus pais, o contrário de Chris, que não gosta do ocorrido e fica transtornado com a morte do animal. É notável que, por sua mãe ter sido atropelada quando criança, o seu transtorno pelo atropelamento é um trauma, mas o destrato de Rose é um sinal de que deveríamos ter prestado atenção nela desde o início. Outra questão da mesma cena, é a pressão feita por ela para que Chris não mostrasse seus documentos para o guarda que os para. O que no momento pode ser tratado como uma espécie de defesa ao seu namorado, é uma força de Rose para que Chris não seja registrado, ou seja, que ele não esteve por lá!

A assustadora corrida durante a noite

A corrida de Walter, a noite, é uma referência a derrota do patriarca da família Armitage para Jesse Owens. Quando descobrimos que Walter na verdade é o avô de Rose em outro corpo, notamos que ele nunca superou a derrota em 1936.

Esconda sua cicatriz!

Keith Stanfield é Andre Hayworth / Logan King.

Todos os personagens negros da trama usam itens para cobrir suas cicatrizes, menos Chris e seu colega. Poderíamos notar antecipadamente que além do comportamento, Walter, Logan e Georgina usam algo na cabeça (boné, chapéu e uma longa franja respectivamente).

Referências sobre racismo e escravidão

Bradley Whitford é Dean Armitage, pai de Rose.

Logo ao chegarem na casa dos pais de Rose, eles explicam que haviam atropelado um veado no caminho. O pai de Rose, Dean, discursa então o seu ódio pelo animal e fala que os veados machos são chamados pela palavra “buck”. Em inglês, “black buck” tratava-se de uma ofensa racista nos Estados Unidos pós-guerra da Secessão em meados de 1865 usada a homens negros que se negavam a se curvar diante à autoridades.

Nas cenas finais, Chris é forçado a “catar algodão” na cadeira para tapar seus ouvidos e não escutar a hipnose. O uso do algodão é uma metáfora sobre escravidão, pois os escravos eram obrigados a plantar e colher algodão para os seus donos.

A cena do bingo, no qual trata-se de um leilão para escolher quem ficaria com o corpo de Chris, é uma referência aos leilões de escravos.

Referências à clássicos do terror

Mesmo tendo sua carreira baseada em programas de comédia, Jordan Peele sempre se declarou um fã de filmes de terror, em alguns sketchs do programa Key & Peele, ele fazia pequenas referências a clássicos do terror, e em Get Out não poderia ser diferente.

Halloween: o clássico filme de terror dirigido por John Carpenter em 1978 redefiniu o gênero e abriu um pouco mais o leque de ideias para filmes. Ele é até hoje um dos melhores filmes de terror a se passar em um subúrbio norte-americano, um dos primeiros para se falar a verdade. Quando Rose e Chris chegam até a vizinhança dos pais dela, é notável a semelhança entre ela e a vizinhança atormentada por Michael Myers em 1978.

The Shining: há algumas referências ao clássico filme de Stanley Kubrick em Get Out. No aeroporto onde o amigo de Chris trabalha, ouvimos no sistema de som, o número 237, o mesmo do horripilante quarto de O Iluminado.

Podemos levar em consideração também o estado mental de Chris, que deteriora durante o filme, algo que ocorre com o personagem de Jack Nicholson. Há também a referência a “labirinto” no começo do filme, quando o personagem de Keith Stanfield se refere ao subúrbio como um labirinto. O Iluminado também tem um labirinto, e não terminou bem.

Psycho: a Armitage têm como hobbie, o hábito de empalhar animais. Chris fica forçadamente encarando um durante vários minutos no filme. Em Psycho, obra de Alfred Hitchcock, o personagem Norman Bates também tem esse hobbie, e o hotel dos Bates é repleto dessa “arte”.

Os Invasores de Corpos: outro filme de 1978 pode ter sido a referência principal da trama de Get Out. Os Invasores de Corpos trata de pessoas sendo substituídas por versões sinistras das próprias — aqui os invasores são alienígena. Esse filme é uma refilmagem de Vampiros de Almas, de 1956, que também trata da paranoia de invasores de corpos.

Laranja Mecânica: alguém forçado a ver imagens que não quer amarrado em uma cadeira? Já vimos isso antes, e em outro filme de Stanley Kubrick. Assim como Alex DeLarge, Chris é obrigado a ver imagens forçadamente. Uma das sequências mais tensas da história do cinema é a principal referência para a cena que leva para o clímax do filme de Peele.

Links com mais informações sobre Get Out:

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