Infiltrado na Klan, por Spike Lee

Em Julho de 1989, Spike Lee estava em Cannes para o famoso festival de cinema. Naquele momento, o diretor iria apresentar em solo europeu o filme Do The Right Thing, seu clássico supremo estrelado por ele próprio, com presença de atores como John Turturro, Danny Aiello, Samuel L. Jackson, entre outros.

O diretor foi entrevistado pela Rolling Stone na época, e perguntado sobre o filme Mississippi Burning (Mississippi Em Chamas, no Brasil), lançado um ano antes e que falava sobre as mortes dos ativistas dos direitos humanos Andrew Goodman, Michael “Mickey” Schwerner e James Chaney por membros da Ku Klux Klan e toda a investigação gerenciada pelo FBI em Neshoba County (Jessup County no filme).

Odiei,” disse Spike em uma resposta curta e direta para o entrevistador. Seu filme na época, como toda a sua filmografia, falava de racismo assim como Mississippi Burning, mas de uma maneira extremamente diferente e realista. “Eles deveriam ter pelo menos a coragem de ter colocado um personagem central negro.”

Spike não está errado. Mississippi Burning é um filme tecnicamente bem feito, mas é visto como uma grande propagação do estereótipo do branco salvador, neste caso, interpretado por Willem Dafoe. O filme de 1988 causou irritação de pessoas ligadas às vítimas do crime real e muitos consideraram um grande desrespeito o fato do diretor Alan Parker e o roteirista Chris Gerolmo terem colocado o FBI como os grandes heróis da história.

“As pessoas têm ideias erradas sobre aquela época… Totalmente erradas. Esses caras estavam grampeando nossos telefones, não investigando os assassinatos,” disse Julian Bond, ativista e líder do Movimento dos Direitos Sociais em 1989.

Lee falou de racismo como ninguém em Do The Right Thing. Um filme extremamente superior quando se trata do assunto. Em 2018, quase 30 anos depois do seu grande clássico, o diretor nos apresenta BlackKklansman, um grande projeto que aborda uma temática semelhante à de Mississippi Burning, mas com uma história real, mais interessante e com compromisso de entregar algo relevante.

Do que se trata BlackKklansman?

O novo filme de Spike Lee tem produção de Jordan Peele, que “vendeu” uma história ao famoso diretor: a de um policial negro se infiltrando na organização mais racista dos Estados Unidos, a Ku Klux Klan. Por mais fantasiosa que ela possa parecer, a história é real, e aconteceu nos anos setenta no estado de Colorado.

No filme, Lee toma a liberdade de mudar o ano que a história se passa e alguns outros detalhes. Mesmo assim, o projeto é baseado no livro do Oficial Ron Stallworth, que foi o verdadeiro infiltrado na Klan e é bem fiel ao que foi escrito.

Ron é interpretado por John David Washington, filho de Denzel Washington, ator o qual o próprio Spike ajudou a elevar a carreira, principalmente com o filme Malcolm X. Adam Driver faz o policial que ajuda na operação e Topper Grace faz o Líder da Ku Klux Klan, David Duke.

Toda a história ainda tem como plano de fundo um possível ataque contra ativistas negros na cidade, policiais corruptos (e racistas), e alguns dos modos operandi da própria organização KKK.


Esse é definitivamente um dos maiores e melhores projetos de Spike Lee nos últimos anos. Seu último longa-metragem foi Chi-Raq em 2015, e seus filmes costumam receber sempre boas críticas, mas não atingem grande sucesso comercial pelo mundo, o que é uma tremenda pena.

Lee é criativo, em Chi-Raq por exemplo, temos um filme que fala sobre a violência de gangues no sul de Chicago usando como base a comédia grega Lisístrata.

Em BlackKklansman observamos que a comédia tem um espaço cativo em várias partes do filme, tudo isso graças ao próprio diretor, mas também ao produtor Jordan Peele, que em 2017 apresentou sua estreia na direção, o fascinante filme Get Out! (Corra! no Brasil). Em diversos momentos, os personagens passam por situações cômicas.


Algo também interessante em BlackKklansman, trata-se do fato da história do filme ainda ser atual. Na cena pós-créditos, Spike Lee inclui imagens de manifestações racistas dos dias atuais e que se assemelham muito com o modus operandi da Ku Klux Klan nos anos setenta. O sentimento de injustiça e de uma sociedade problemática nos enoja ao observarmos algumas daquelas cenas reais.

Tocar o dedo na ferida é com Spike Lee, e mais uma vez ele se sobressai fazendo uma crítica altamente relevante para o presente. Lee é definitivamente um dos mais importantes cineastas vivos.