TEMPO PARA SI
Ângelo tinha sete anos quando se apaixonou pela sua atual profissão, que na época era taxada como Hobby dos esquisitos, entomologia, mas o seu gosto ficou aguçado não pelas formigas de seu quintal, não pelas lesmas que vinham depois da chuva e muito menos pelas aranhas que devoravam as moscas em todos os cantos escuros de sua casa. A sua primeira paixão foi uma larva da borboleta Caixão de defunto, onde mais tarde ele aprenderá seu nome cientifico era papilio thoas brasiliensis.
No dia, que era uma quinta feira e nas quintas ele podia andar no jardim da escola, ele caminhava sem rumo sozinho entre a grama baixa que ficava próximo de um arvoredo. Ele encontrou-a, depois de um dos rapazes mais populares da escola chutar uma bola de mosquetão em uma galha de arvore que estava baixa, caída em "choque" pela pancada. Ele voltou correndo para o refeitório e pediu uma caixa de fósforos para usar como maca hospitalar. Voltou a ela e a guardou para leva-la para sua casa.
No caminho de volta ele comprou um aquário e terra enriquecida para levar para sua mais nova amiga, em seu quintal colheu as plantas velhas que sua mãe não cuidava direito e levou para dentro. Em seu quarto ele arrumou o aquário com tudo que ele colecionou na volta e por fim finalizou dando um novo lar a sua Larva-Amiga.
Todos os dias colocava lá uma nova grama para alimenta-la, espalhava gotas de água para matar a possível sede e uma lampada ligada para simular o brilho do sol. Deu a ela um nome, Amanda, e em tres belos dias ela foi melhorando do trauma que tinha sofrido na escola.
Ao voltar para casa, Ângelo, se depara com uma coisa ocupando o lugar que deveria estar Amanda, uma capsula branca-opaca, como se fosse uma capsula de linha de seda e pendurada em um dos galhos da pequena arvore que enfeitava o Aquário-Lar de Amanda, A Larva. Ele compreendeu que ela havia mudado do dia para a noite, tinha estudado sobre isso, agora Amanda estava em estado de pupa e necessitava de mais cuidados e ele a ajudou nas semanas seguintes.
Dezembro estava próximo e ele tinha que começar a estudar para as provas finais da sua escola, mas ele também precisava cuidar de Amanda, com os horários certos da luz, cuidados com as traças (que começaram a aparecer) e algumas formigas, que poderiam causar alguma mal a Amanda naquele momento, então ele decidiu focar seu tempo para sua agora Pupa-Amiga e não estudou.
Na primeira semana de Dezembro ele foi péssimo nas provas, mas a semana seguinte ele ele teve outra surpresa enquanto cuidava de Amanda. A pupa dela estava eclodindo e mais outra batalha pessoal dela ele presenciava, e apreciava com orgulho. Ela saiu esbelta, uma linda Borboleta Caixão de defunto, dando seu primeiro voo com as assas. Ficou alegre em ver que seu tempo gasto com ela resultou em algo positivo a ela, mas esse breve momento foi quebrado pelo chamado da mãe natureza, a borboleta tinha uma nova vida, mesmo graças a ele, não deveria permanecer ali, mas ela deveria partir.
Desde então, quando soube compreender o que tinha vivido, o Entomologista Ângelo Moreira da Costa Lima vive pequenas fases de Auto-Pupa, onde reserva um tempo para si e assim se transformar na mudança necessária para o seu bem.
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EM MEMORIA AO ÂNGELO MOREIRA DA COSTA LIMA,1887—1964, MAIOR ENTOMOLOGISTA DO BRASIL
