O silêncio entre nós dois

No meio do dia uma notificação solitária lhe importunava as idéias, sacava sem vontade o smartphone e se deparava com um tweet marcado com um coração vermelho. Mais tarde no mesmo dia uma “abinha” indiscreta lhe tampava a visão do conteúdo da tela, ostentando uma mão com um “joinha” azul, lhe dando as boas vindas.
Nas ocorrências diárias se esbarrava digitalmente com ela e se perguntava se havia reciprocidade no olhar de interesse nas notificações. Na confusão de zeros e uns do mundo binário a única beleza a ser ostentada é a capacidade de se formar sinapses cerebrais com coerência e maestria, e nisso ela sempre se saia bem. Por observar, por tanto tempo, acabou por reservar um tempo preguiçoso, tal como um bom stalker, para abrir o perfil e destrinchá-lo quanto a sua forma e conteúdo. Nunca se decepcionava.
Havia encontros nas esquinas de cantos escuros, mas nestes só havia um belo arroz com pequi dividido vorazmente, uma história de romance recente, as tentativas de escorpião de se provar o fundo do poço e o silêncio de quem não aprendeu se são amigos ou não. Era nas conexões da rede que seu amor platônico aflorava.
Por final sempre retirava a valiosa lição de que não a conhecia, e nem acha certo se deveria, mas gostava de ter a certeza que se a próxima notificação fosse dela, daria um sorriso silencioso para a tela resplandescente do seu celular.
