Umidade Relativa do Ar

Eu gostaria que chovesse. Gostaria de ver caindo uma daquelas tormentas avassaladoras que balançam os vidros da janela e que a gente escuta o retumbar incessante das gotas contra o chão. O clamor audível é reparado mesmo que escondido embaixo de um cobertor bem grosso, onde se oculta a cabeça.
Eu nem estaria no centro da tormenta, mas sei que ela purificaria as vielas sujas das garrafas de Brahma e das bitucas de Hollywood que repousam no solo de uma colheita de desespero. Sem esforço, eu mesmo sou purificado.
O clima tenso, o céu nublado e a pressão do ar me dão pistas que vai chover. Não sei se o céu reflete a realidade ou apenas o meu desejo constante para que tal evento aconteça, mas é o que eu sinto.
O sol já tá há tempo demais por aqui. Esturricou a árvores, gramas e vidas que nutriam o oxigênio do meu precioso cérebro, tesouro que guardo bem atrás dos olhos. Óbvio que ainda se há beleza em cenário tão inóspito. Os galhos retorcidos, o sertão que vive em meu peito e a erosão das rochas de dogmas apontadas como flechas para o céu. O sertão que faz nascer árvores tristes e cascudas, que me protegem para a estiagem deste ano, do próximo ano e do novo que há de vir.
Mas o problema é que você gosta da Mata Atlântica. Há beleza no sertão, mas todo mundo gosta do perigo da Mata Atlântica. Toda verdinha e graciosa, cheia de mistério e templos perdidos.
Mas o problema reside no sol, que não se esconde nem pela força das nuvens. O sol te julga e te queima e, a partir do momento que você decide andar pelo dia despretensiosamente, faz arder sua pele e causa bolhas de emoções. Tentar andar somente a noite é sempre uma opção.
A chuva viria para sanar toda essa “sequidão”. A água seria como sentimento que completa este copo meio vazio/cheio de vinho ou cerveja ou do que você quiser, mas ela chegaria, pois já está na conta do bar.
Todos os indícios climáticos estão na espreita, mas a chuva nunca vem e o sol continua a rir da sua cara. Eu roguei pela chuva, me esquecendo completamente que não haveria de ter nem deuses e nem mestres, e ela não veio. Não inundou minhas comportas (ou se um dia estiveram inundadas será que apenas evaporou?).
Mas quem sou eu pra sentir tudo isso. Eu tô no meu quarto, todo embrulhado, pensando se vai chover no meu sol em escorpião.
