Como ser egoísta me fez ajudar outras pessoas

Uma das frases que caracterizaria uma pessoa egoísta. (Fonte: Frases Pequenas)

Egoísmo. Uma palavra que dificilmente é vista com bons olhos — a frase acima é apenas uma das diversas “descrições” que aparecem quando digitamos a palavra “egoísta” no Google.

Em contraste, ao digitar a palavra “altruísta”, que possui sentido oposto ao egoísta, a maioria das respostas traz conceitos positivos que fazem um altruísta ser bem vindo aos olhos das pessoas. A frase abaixo traz um desses conceitos.

O altruísmo quase sempre carrega conotações de bondade. (Fonte: dicio.com.br)

Portanto, parece que temos um consenso. Egoísmo é algo carregado de características negativas, destinado aos infelizes e sem amor. Já o altruísmo representa o oposto: a dedicação ao próximo, o amor incondicional, a bondade acima de tudo.

E é exatamente aí onde está o problema.

A virtude do egoísmo

Antes de mais nada, devemos dizer que os significados acima propostos não estão equivocados. Egoísta representa o indivíduo que coloca os seus interesses a frente dos de qualquer outra pessoa, a sua felicidade acima da dos outros. Ao passo de que o altruísta faz o oposto. Não existe nenhum erro de semântica ou de arbitrariedade aqui.

O problema citado está no endeusamento das características altruístas e na execração do egoísmo. O primeiro é vendido junto com imagens de brutamontes homicidas ou de pessoas ricas que usam seu dinheiro para prejudicar os mais pobres. Um homem matou uma mulher a sangue-frio? Ele foi egoísta, e por isso o egoísmo é algo que pode gerar pessoas frias e assassinas.

Mesmo a definição de dicionário para a palavra está carregada de juízos de valor, os quais acabam eclipsando o verdadeiro significado da palavra: a preocupação com os próprios interesses.

Foi apenas no século XX, através da filósofa russa radicalizada nos Estados Unidos Ayn Rand, que o estudo das virtudes de uma posição egoísta saiu do campo emocional e passou a ser foco de um estudo verdadeiramente sério.

Rand escreveu dois livros seminais, A Revolta de Atlas e A Virtude do Egoísmo. Em ambos, principalmente no segundo, Rand foi uma das primeira filósofas contemporâneas a trazerem o estudo da posição egoísta longe dos juízos de valor que permeiam o julgamento de tal comportamento.

Porém, o significado exato e a definição do dicionário para a palavra “egoísmo” é: preocupação com nossos próprios interesses.
Esse conceito não inclui avaliação moral; não nos diz se a preocupação com os nossos próprios interesses é boa ou má; nem nos diz o que constituem os interesses reais do homem. É tarefa da ética responder a tais questões.

Esse trecho, retirado de um dos artigos de Rand sobre o egoísmo, mostra que o egoísmo pode ser visto através de uma simples diretriz: a busca dos nossos interesses. Essa busca pode ser nociva para outros, claro, e é para orientar sobre esses desvios — e também puni-los — que a ética e as leis existem. Mas a diretriz aqui é a nossa busca pessoal por aquilo que nos fará felizes.

Até mesmo a constituição dos Estados Unidos, um dos documento mais liberais já criados na história, destaca uma diretriz bastante egoísta ao trazer entre os principais direitos dos seres humanos a “vida, liberdade e a busca pela felicidade.”

Ora, a busca pela felicidade é algo que necessariamente passa pela busca das coisas que mais nos agradam e que mais desejamos. Segundo Rand, o altruísmo declara que qualquer ação praticada em benefício dos outros é boa, e qualquer ação praticada em nosso próprio benefício é má. Isso vai totalmente contra a ideia de busca pela felicidade e coloca que essa busca deve ser focada em ajudar os outros, ainda que isso vá contra os nossos interesses.

Assim, o beneficiário de uma ação é o único critério de valor moral — e contanto que o beneficiário seja qualquer um, exceto nós mesmos, tudo passa a ser válido. Um indivíduo que abre mão de viver, ainda que contra a sua vontade, para viver em função de outros, passa a ser visto como o ideal de bondade humana. Mesmo que, nesse caso, a razão de ser humano já tenha deixado de existir a tempos.

O egoísmo que me fez ajudar os outros

Por anos, eu tentei me tornar exatamente o tipo de pessoa que a visão altruísta defendia que alguém fosse: bom, desapegado, que priorizava os demais em detrimento de si próprio.

O resultado foi ter ganhado uma postura passiva, que me prejudicou de forma cruel durante boa parte da minha vida. Essa postura me levou a fortes perdas financeiras, problemas legais e até mesmo a uma depressão que por pouco não me fez tirar minha própria vida.

Aliás, na época desse último fato eu realmente via o suicídio como um ato de altruísmo e benevolência. “Tirar minha vida eliminaria um fardo para diversas pessoas, e traria benefícios para muitas outras”, eu pensava.

E de fato eu estava certo: traria benefícios para uns — os quais seguiriam suas vidas, em busca de sua própria felicidades — e jogaria um fardo enorme em cima da única pessoa que abriu mão de sua própria busca: .

Hoje, risquei a palavra altruísmo de forma definitiva do meu vocabulário. Isso não significa, no entanto, que me tornei um brutamontes que não liga para mais ninguém. Apenas quer dizer que antes de pensar em qualquer ação, por mais benevolente que seja, sempre me pergunto: “qual o benefício — material ou intangível — que terei ao realizar essa ação?

E dado que benefícios são subjetivos, e ninguém possui a mesma percepção que o outro, qualquer razão que me traga benefício pessoal acaba por beneficiar outras pessoas. A paz de espírito ou o orgulho que me leva a realizar uma doação faz com que esse dinheiro seja utilizado para ajudar pessoas mais pobres a comerem ou a terem um lar para morar.

O orgulho em ter alguém ao meu lado, para dividir meus momentos de sucesso e de fracasso, é o mesmo sentimento que me leva a dar amor a uma mulher e passar com ela esses mesmos momentos, que ocorrerão em sua vida.

Ser altruísta me levou a ser uma pessoa fria, alguém que cobrava das outras pessoas o mesmo que dava a elas, ainda que de forma indireta. O altruísmo me fez buscar migalhas através de uma imagem de “desapegado.”

Ser egoísta me leva, hoje, a fazer tudo o que faço pensando apenas em mim mesmo. Se minhas ações beneficiam alguém, ótimo, mas este não é nem de longe meu objetivo principal, mas uma consequência positiva trazida como consequência da minha principal busca: a autofelicidade.


Se esse conteúdo te gerou valor, você pode ajudar a espalhá-lo para mais pessoas. Deixe o seu aplauso e compartilhe esse texto com um amigo. Você pode também contribuir com uma doação mensal ou de valor único, a partir de R$ 5,00. Basta clicar aqui e escolher a melhor opção para você. As doações também podem ser feitas em Bitcoin, através do endereço abaixo: 1A2Ly4cpaUkMZiZSF81ixPem6f7hN4nPsa