Não tenha vergonha de sentir vergonha. Ou: nem todo erro guarda apenas lições

A vergonha, embora pareça pusilânime, também faz parte do crescimento humano. Sua vivência nos torna pessoas mais fortes perante os golpes baixos da vida. (Fonte: Gospel+)

Erros. Uma parte tão natural ao ser humano quanto comer ou respirar. Decisões equivocadas ou mesmo desastrosas fazem parte da nossa curta jornada nesse mundo.

Eles podem ter diversos graus e consequências. O erro de uma criança que mente aos pais para não ir a aula terá um impacto totalmente diferente do erro de um homem que faliu e esconde o seu fracasso da esposa e dos filhos ao tentar manter um estilo de vida que não existe mais. E são as consequências de erros como esse que nos interessam no texto de hoje.

Algo comum entre as pessoas que cometem erros graves é a aparente incapacidade de lidar com a própria derrota. Essa incapacidade geralmente leva a tomarmos posturas semelhantes a do exemplo acima: camuflar o erro com uma falsa cortina de normalidade. Tentamos “remediar” a situação com paliativos, escondemos os reais problemas, enfim — criamos uma pretensa armadura de ferro contra erros, mas que no final não passa de uma couraça cheia de rachaduras, que esconde um espírito frágil e avesso a fracassos.

E, no meu ponto de vista, parte da culpa dessa dificuldade em lidar com as consequências de nossos erros advém de um dos maiores temores atuais: o medo da vergonha.

“Não seja a vergonha da família!”

Os mais velhos costumam chamar a geração dos Millennials de frágil, formada por pessoas que não sabem lidar com derrotas e recomeços. Pode até ser verdade. Mas o fato é que, a despeito do discurso dos nossos pais, a geração atual, na verdade, foi ensinada a não demonstrar suas derrotas.

E essa falta de prática em aceitar que, sim, podemos — e iremos — errar acabou na criação de uma nova cultura: a de que não podemos nos arrepender de nada que fizemos de errado.

“Não se arrependa dos seus erros. Todo erro carrega uma lição que deve ser aprendida. Não mergulhe no arrependimento, mas parta para sua próxima vitória!”

Eis algumas lições que, embora tenham uma carga motivacional positiva, acabam minando a capacidade de realmente extrair o melhor de um erro ou acontecimento trágico.

A vergonha como mola propulsora

A vergonha faz parte de um processo saudável de repulsa a erros. Quando experimentei meus processos de falência e final de relacionamento, fiquei meses mergulhado em uma grande vergonha. A sensação de fracasso e de decepção comigo mesmo me levaram a ter uma maior proximidade com a única pessoa que compreenderia de fato a minha situação: eu mesmo.

Eis alguns dos questionamentos que me fiz ao lidar com a vergonha de ter desperdiçado meu patrimônio e ver um relacionamento chegar ao fim:

Como cheguei a uma situação tão drástica?
Será que não sou bom ou competente o suficiente para ser feliz?
O que meus pais e familiares vão pensar quando descobrirem o que houve?
Sou um fracasso e fui abandonado porque ninguém gosta de fracassados ao seu lado!

As duas últimas perguntas me trouxeram as lições que carrego até hoje em relação àqueles momentos de vergonha. Eu sempre me vi como um pária dentro da minha família, alguém que, por pensar diferente da maioria dos meus tipo, primos e outros parentes, acabava sendo visto como algum incapaz. Isso me manteve afastado dos meus familiares em vários aspectos, inclusive no sentido de compartilhar problemas pessoais.

Ter esse afastamento, aliado com a vergonha que senti, me fez compreender melhor sobre a forma como eu poderia ajudar a mim mesmo. Ao ter apenas o meu eu vergonhoso como companhia, precisei criar uma visão do meu eu futuro para que pudesse mergulhar rumo ao meu processo de recuperação.

Esse “alvo” no eu futuro serviu como uma âncora que me manteve preso a um mar de vergonha por muito tempo, mas que, ao mesmo tempo, me serviu como impulso para sair daquele cenário. A vergonha de estar onde estava, e o fato de ter uma âncora em um estado muito melhor do que o meu atual — com menos vergonha para carregar — se converteram num impulso de saída, rumo ao meu estado atual.

Vale ressaltar que, embora meu estado atual seja muito melhor do que o meu estado de vergonha da época, ele ainda está longe do estado desejado. Contudo, a mola propulsora funcionou de maneira muito eficiente.

As lições

Dito isso, as lições que aprendi ao abraçar a vergonha de um erro cometido foram as seguintes:

  1. Primeiro sinta o impacto negativo de uma situação ruim oriunda de um erro. Abrace a negatividade antes de encarar o lado positivo (afinal, um erro não se chamaria erro se fosse algo positivo);
  2. Faça comparações. Compare a si próprio com os outros, com o seu eu de antes do erro, até mesmo com uma persona de eu futuro que você pode criar. As comparações são formas eficientes de reconhecer seu estado atual e seu estado desejado;
  3. Use a vergonha e a comparação como molas propulsoras de uma mudança de comportamento. A comparação com o seu estado atual e o (imaginado) estado futuro serve como um estímulo para continuar o crescimento e a evolução pessoal, ao passo de que a vergonha da difícil situação do estado passado nos mostra um lembrete de por que devemos tomar cuidado para não repetir os mesmos erros;
  4. A mais importante de todas as lições: não deixe as situações de vergonha durarem indefinidamente. Trabalhe sua mente para que, aos poucos, ela vá deixando de lado a vergonha e o seu estado passado. Afinal, como dizia Doc, o mentor de Luke Cage: “forward, always.” (Em frente, sempre.)