“Foi ele!” — a saga do culpado sem culpa.

A deterioração do juízo moral da sociedade chega a patamares nunca antes conhecidos. Neste desbravamento do absurdo, o homem moderno, sobretudo em nossa sociedade “pindorâmica”, tem verdadeira sede de ignorância e prefere o equívoco consciente e cômoda do que a verdade racional e dolorosa.

É de causar assombro o atual estado das coisas! Os indivíduos não são responsabilizados nos seus atos, mas sim uma massa difusa e informe, etérea e cuja penumbra ronda a todos, como um fantasma opressor que sussurra aos ouvidos a culpa alheia, sempre o outro. Assim, torna-se mais confortável admitir o erro do transgressor e, acusando-o, se reconhece a si mesmo, ainda que inconscientemente. É aquela célebre frase: “O inferno são os outros!”

Ao se dizer que o mal é sempre exterior, impossibilita-se ou dificulta-se a possibilidade de assunção de culpa própria. O ser já não é capaz de realizar uma mea culpa, a fim de externar uma falha pessoal, ainda que evidente. Desta forma, em sendo todo ser exterior um mal que não o afeta (aparentemente!), é mais fácil suportar as cavidades obscuras de si mesmo, sob a enganosa pecha: “se em todos há trevas, por quê haverei de ser iluminado?” ou ainda, “quem pode proferir juízo ao meu respeito se somos todos iguais?”.

O pensamento auto-absolutório é causador de males gravíssimos à uma sociedade, haja vista que: a) já não se encontram seres capazes e responsáveis por suas próprias razões, forçosamente, retornando as coisas a um estado primitivo e desordenado; b) é abalado o juízo de valor necessário à sadia convivência das gentes, uma vez que não é possível balizar comportamentos conforme uma tábua estável ou aceitável de regramentos, já que inexistentes; c) a realidade das coisas (verdade, moral, ética, valor, etc.) é relativizada e tornada inócua, já que em tudo se há de verificar a credibilidade do emissor/operador. Ela nunca está além ou acima do que fala, mas sempre deve adequar-se integralmente ao seu mensageiro, sob pena de invalidade/inaplicabilidade.

Exemplifiquemos a questão: João decide, por deliberação própria, tomar sorrateiramente para si bem alheio. Maria, sua irmã, acusa-o ao seu pai pelo delito cometido. João, sem arrependimento, indaga a seu genitor se já não teria em sua infância procedido de igual forma. O pai, cabisbaixo, decide não punir o menino já que na semana passada pegou uma caneta de seu colega de trabalho sem sua autorização. Contente com a inatividade do pai, cuja verdade não adequou-se à verdade da possível reprimenda, João continuou a deleitar-se com sua aquisição ilícita.

Ora, a verdade, a moral e os valores estão para além dos sujeitos. Não sendo possível admitir que sejam postos em cheque se o que realiza sua aplicação não persegue com perfeita correspondência com o discurso, a fim que não se enseje o caos da inculpabilidade do costume contra legem (contra lei).

Ainda que o ser humano cometa erros, é fundamental que fique resguardada a custódia das condutas, sob pena de uma desenfreada superproteção do desvio inculpado. Ainda que uma geração suceda a outra com atividade criminosa reiterada, o ato sempre será culpável, independentemente de quem opere o juízo.

A culpa coletiva ou seletiva, portanto, é nada mais que a escusa imprópria de desvios próprios, subtraindo de qualquer um que se arvore na incumbência de afirmar o direito, a possibilidade de ratificar a verdade já que, analisando as consciências e o passado de todos, não há juízo dotado de candura e pureza superiores que o autorizem. O inferno são os outros!

Quem tiver ouvidos, ouça.

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