Funk e periferia

Rochelle pedindo para o Chris baixar o Funk ostentação.

Não posso dizer que nunca gostei de funk. Seria uma mentira. Houve um tempo da minha vida que ouvi funk. Quais? Lembro-me de uma dupla, Márcio e Goró, que tinha uma bela música que dizia: “Enquanto isso, a chuva cai lá fora, tu olha da janela e chora, me implorando p’ra te amar!”.

Enfim… Isso, para mim, era funk. Se não me falha a memória, nessa época, houve a explosão dos grupos de axé, da então “Cia do Pagode”, “na boca da garrafa” e muitos outros. E nesse período, e alguém corrija-me se estiver equivocado, quem trazia as letras com teor “adulto” eram esses grupos. O funk tratava das paixões adolescentes, sobre ser “mais um silva que a estrela não brilha”, ou seja, era um modo de falar sobre a vida e de fazer “protesto”.

Hoje, chamam o funk de “cultura da periferia” e eu, com minha habitual contrariedade, não aceito como verdadeiro esse título cunhado sei lá por quem. Ando no meio do povo, converso com muita gente, e nunca vi um senhorzinho com chapeuzinho de palha ou um boné que seja, cantarolando uma música do MC Livinho ou de qualquer outro MC da modernidade.

Imagine! O povo no domingo, fazendo um churrasco, como é de praxe, e toda a família ouvindo um “proibidão”- nem sei se ainda chamam assim! Se isso acontece no Rio de Janeiro, não sei, mas se a periferia do Rio tem o condão de transformar tudo em cultura, ok. Se não, então, estamos muito enganados.

O que há, de fato, é que uma faixa etária da população ouve determinado tipo de música (?) e nem sempre esse grupo restrito de pessoas é da periferia. Até porque, com o acesso facilitado da internet em nossos tempos, essas barreiras foram, há muito, derrubadas.

Muito de que se produz de funk atualmente é ostentação, de uma juventude sem referências afetivas e culturais, especialmente. Assim, refugiam-se o exibicionismo e na promiscuidade, fazendo verdadeiro trabalho apologético à vida desregrada e, por vezes — muitas vezes-, ferindo a dignidade da pessoa humana com suas letras nada inocentes. O que antes o axé trazia por “figuras de linguagem” hoje fala-se às claras.

Tenho a ligeira impressão que tais rotulações querem conferir a obrigação de que o pobre, contudo, especialmente o — como dizem- preto pobre ouça/consuma esta ou aquela cultura, como se fôssemos obrigados, por força da cor, ao que é ruim ou, mesmo que não seja ruim, ao que não nos apraz.

Enquanto isso, a chuva cai lá fora, e a periferia, terra de silvas, continua tocando Zeca Pagodinho e sertanejos dos mais variados…

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