Pokémon: o nu vs. o mal vestido.

Há uma semana, o Brasil foi invadido pelo avassalador aplicativo que está causando um certo frenesi em todo o mundo: Pokémon Go! O jogo baseado no anime em que um rapaz sai de sua cidade em busca Pokémons, pocket monsters, criaturas que possuem poderes, cuja captura torna o “caçador” um Mestre e concede “prêmios”, conforme seu sucesso nas batalhas com outros mestres. Basicamente é isso!

Enquanto os brasileiros aguardavam a liberação dos servidores por aqui, diversos países já experimentavam a novidade, chegando-nos notícias bizarras de grupos enormes mobilizados em prol da capturas dessas criaturinhas digitais numa plataforma com realidade aumentada, pessoas que seguindo os mapas dos smartphones esqueciam-se de verificar a realidade e sofreram acidentes mortais, abandono de emprego, etc.

Por outro lado, vimos lá fora e aqui, testemunho interessantes, de interação de pessoas, de superação de depressões, de pessoas que buscam o puro entretenimento utilizando-se do jogo como um legítimo prazer da vida.

De um lado levantou-se a nação pokemaníaca, arrastada pela imprudência e pelo desvairo da revolucionária novidade. De outro os anti-Pokémon, cujo ódio pela possível alienação/ “imbecilização” gera inúmeras discussões e defesas apaixonadas e, por vezes, desrespeitosas.

Gostaria de ater-me ao segundo grupo, porque sabemos que o vício notório é algo destrutivo e irracional, já o vício disfarçado e seletivo é também igualmente perigoso, especialmente numa sociedade viciada em tecnologia como a nossa. Um mal ao qual poucos estão isentos.

Há quem não consiga dormir sem ouvir música do seu celular ou com o barulho da televisão, quem não gaste menos de duas horas de acesso às redes sociais, quem não fique o dia inteiro atento às notificações do smartphone, que verifica periodicamente seu WhatsApp ainda que não haja notificação alguma, quem troca as fotos dos perfis com mais frequência e rapidez que os gois -plural de gol- da Alemanha contra o Brasil.

As redes sociais introduziram na nossa vida uma pseudo-necessidade. Parece que para ser um ser humano normal é necessário e essencial que se possua um perfil em qualquer rede social ou comunique-se pelos aplicativos de mensagem. A rede social está para a sociedade tal qual o CPF para o Estado: tenho Facebook/WhatsApp/Twitter, logo, existo. Tais meios são utilizados tanto para dar um simples “Bom dia!” quanto para espalhar os mais piedosos sermões diários e bem produzidos pelas câmeras 4k ou 15MP. Tudo é justificado. Os fins justificam os meios.

Aparentemente, não se percebe a dependência coletiva da tecnologia. Quem nunca sentiu um frio na barriga ao correr a mão sobre o bolso direito da calça e não perceber o celular, esquecendo que ele estava no bolso ou na mão esquerda? Sair sem celular equivale àquele temido sonho de ir nu para a escola. Não enviar o sermão do dia pode perder uma alma, então é permitido empreender horas enviando textos e dando conselhos… como se não existem pessoas ao lado que não dependam da palavra natural e próxima.

Penso que o asco em relação ao Pokémon GO! é devido à necessidade de coragem de assumir que um adulto faço uso de jogos, aparentemente, infantis. Isso porque um número considerável de pessoas, de todas as idades, jogam desde Candy Crush, Fazenda Feliz, ou outros de corrida infinita, o que se pode fazer no aconchego das poltronas e dos quartos ou assentos dos coletivos. Enquanto isso, para capturar um Pokémon é necessário caminhar e interagir com outros jogadores. Todos igualmente viciantes.

Fique claro que este texto não é uma defesa do novo aplicativo, mas uma reflexão a respeito da dependência generalizada da tecnologia, agora, um pouco mais evidenciada. É preciso fazer um mea culpa e assumir: sou também eu apegado à tecnologia! Seria mais honesto e menos agressivo aos que não são “viciados” nos mesmos jogos/redes/meios de comunicação que nós. Há que se examinar tudo e extrair o que é bom, utilizando-se do bom senso e da justa medida, a temperança.