Profissão: Polêmico!
Do desejo de ser polêmico.

Confesso que num passado não muito distante, e que meu Facebook não me deixa esquecer, eu tinha uma espécie de comichão por polêmicas. Ah, como eu adorava publicar opiniões ou notícias com único intuito de “criar caso”! E não dava outra! Choviam comentários, bons e ruins. Não importava! Adorava a todos.
Mas os melhores eram os comentários negativos. Era como se cada crítica derramasse no meu cérebro talhas pesadas de endorfina e serotonina, hormônios responsáveis pelo prazer, que faziam-me regozijar numa intensa atividade cerebral que criava respostas magníficas e que encontrariam assentimento nos nobres corações dos meus amigos. Eu amava ser polêmico! No meu caso o polêmico piedoso.
Observando minha própria loucura, cheguei à conclusão que, o polêmico é um verdadeiro amante de si mesmo. Como Narciso, gosta de apreciar-se longamente. Insufla seu ego a cada gota da contrariedade dos ouvintes ou da plateia fiel e, por vezes, bem intencionada. Deleita-se com o requinte de seu debate, e refastela-se na arte da refutação. Banqueteia-se com a falta de argumentação alheia ou com a mera irritação. E não está satisfeito até expor a todos os garçons deste espetáculo do estômago: “tem o rei na barriga”.
O livro de São Tiago diz que “a língua é um fogo”. Analisando bem esta categórica constatação é possível refletir alguns pontos. A língua — seja do fofoqueiro ou do maledicente ou do polêmico- são arma de fogo, verdadeira bomba napalm, porque inflama de vaidade o seu possuidor, fazendo com que arda vivamente seu apetite de si, bem como queima de ódio os corações expostos a tais chamas. Queima a razão dos que atiçam tais brasas incandescentes, por mais racionais que sejam seus argumentos, fazendo secar toda virtude, humildade e compaixão.
Por fim, e mais preocupantemente, a língua fará queimar não só a si mesma, todo o curso de nossa vida (cf. Tg 3, 6b), posto que inflamada pelo inferno é um mundo de iniquidade, mal irrequieto, cheio de veneno mortífero. Segundo o mesmo Tiago, quem tem gosto pelas contendas, ainda que inteligente e sábio, não possui a sabedoria do alto, mas sim “uma sabedoria humana, terrena e diabólica”.
Se estou recuperado, não sei dizer. Faço essa confissão para que outros tantos não sigam esse exemplo, não se arvorem e ser os mestres deste mundo e profissionais das palavras ociosas que, em vez de construir firmes e virtuosas edificações nas almas, cria ídolos e fossos para eles/nós mesmos.