Sobre a amizade
Diz o Espírito Santo que “quem encontrou um amigo encontrou um tesouro”. Curioso como é verdadeira essa afirmação. Um fato atestado pela experiência da vida humana, pelos sentimentos que tal laço produz e pelos bens alcançados por tal empreendimento. Certamente, não há empresa humana mais lucrativa que a amizade.

Quando crianças, fazemos e/ou somos introduzidos no universo das descobertas, do avanço da imaginação pelo mundo da fantasia, das ilustrações fantásticas, dos castelos de contos de fadas, criaturas monstruosas, heróis, explorações, caças ao tesouro. Sobre essa última atividade é que gostaria de iniciar: as incríveis caças ao tesouro.
A criança, em sua pureza, consegue, sem pretensão alguma ou cobiça, sair percorrendo um mundo de grandes perigos a fim de encontrar tesouros inimagináveis. Aventuras deslumbrantes desenham-se à sua frente como que irrompendo do chão diante dos seus olhos. Tais expedições são fruto de uma aguçada imaginação aliada ao desejo do desconhecido, do alcance de algo grandioso e de valor inestimável que, ao fim, não existe, mas que não desvanece sem deixar marcas de contentamento, alegria e desejo de novas ações nessa realidade imaginada.
Assim, desde pequeninos, descobrimos que é prazerosa a descoberta de algo inestimável e que grandes baús guardam preciosidades e cuja posse acontece à custa de muito esforço, numa conquista valorosa e árdua, proporcional ao seu conteúdo. “Muito custa aquilo que muito vale”, afirma Santa Teresa de Jesus, logo, o bem precioso que tratamos, a amizade, não só é alcançado à custa de muito suor porque o ouro é provado no fogo, mas também, porque por ser uma graça divina, possui valor altíssimo e, até diria, inestimável.
Deus, quando criou todas as coisas, criou-as por amor, mas ao homem, não só criou, mas da matéria formou seu amigo, sobre o qual comunicou diretamente sua vida divina, tornando-se íntimo ao ser humano, que falava-lhe e com ele aprendia a serem verdadeira imagem e semelhança. Até que veio o pecado. Ainda assim, o Criador desejou manter a “aliança” de ouro fino da amizade, relacionando-se intimamente com Moisés, face a face (Ex. 33, 11). À luz de tão luminoso ouro o semblante de Moisés era tomado de tamanho fulgor que o obrigava a ocultá-lo. Bastava entrasse na Tenda para que o Senhor, como no Jardim, viesse “caminhando” ao seu encontro, de modo que o profeta podia interceder pelo povo.
Benditas as flechas da amizade que mantiveram vivo o laço amigo, abençoado por Deus, entre Jônatas e Davi, cuja devoção de um para com o outro era reflexo de uma plena “comunicação” do espírito, que excedia até mesmo os laços familiares e vantagens humanas, uma verdadeira união dos corações (cf. Cr 12, 17). O que poderia explicar esta união de espíritos senão uma própria e eficaz graça que concede a dois seres humanos partilharem dos mesmos sentimentos? Esse amor faz velar sobre a tenda do outro em meio ao chacoalhar dos ventos desfavoráveis (Jó 29, 4), é proteção poderosa (Eclo 6, 14a).
Muitos já discursaram, criaram poemas e canções a respeito da amizade e, de algum modo, as diversas visões tendem a envolvê-la num véu de “imortalidade”, similar a invencível dureza dos tesouros escondidos nos baús ou perdidos em alto mar, ou ainda, à inquebrantável fortaleza do diamante, cuja preciosidade faz ofuscar a visão. Daí segundo a linguagem popular, “é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves”, ou ainda, “se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre”.
A união de que aqui falamos é fortalecida exatamente na propriedade do material em que é forjada, como a espada que é moldada no fogo e afinada no martelar do ferreiro: quanto mais batidas sobre o metal incandescente, mais aguçada é a lâmina. Assim, quanto mais firme a união entre almas, mais refinada torna-se, ainda que sob ataques brutais recebidos exaustivamente.
Dizem que é na dificuldade que se conhecem os verdadeiros amigos, contudo, uma alteração merece ser feita nessa afirmação. A dificuldade, como dissemos, é o fogo necessário para que faça-se a espada firme e preciosa, portanto, a liga só é aperfeiçoada quando estão presentes quentura e “violência”, isto é, na dificuldade é que são feitos ao amigos, sem adjetivações. E é aí que a Sagrada Escritura aconselha que os conquistemos, no dia da aflição (cf. Eclo 6,8)
Todo amigo é verdadeiro, caso contrário, será um falso amigo, um indiferente ou até mesmo um estranho. Assim, é mais conforme a afirmação de que os amigos são feitos na dificuldade que quanto maior for, mais durável será o grau de união. “O amigo ama em todo o tempo: na desgraça, ele se torna um irmão” (Prov 17, 9).
Podemos dizer também que o amigo é como o vinho, que quanto mais antigo mais apurado fica (cf. Eclo 12, 8), tornando-se mais agradável aos seus apreciadores e, conforme sua preciosidade, não será tomado para a embriaguez, mas servindo tão somente ao paladar e ao legítimo prazer. Uma vez sorvido, essa salutar bebida aquece o coração trazendo coragem e força, bem como trazendo alegria à razão, é como a bondade que consola a alma (cf. Prov. 27, 9). E por ser dom divino, esse vinho se adquire sem paga (cf. Is 55, 1).
Jesus chama seus discípulos de amigos, isto é, não de servos ou aprendizes, mas de almas unidas a si mesmo, oferecendo-lhes o vinho, derramando em favor de todos quantos desejem esse santo convívio. O vinho aqui é o sacrifício de quem dá a vida pelos seus amigos, vinho adquirido não com favores ou com comércio recíproco, mas como doação de quem ama e não deseja nada em troca, a não ser o amor verdadeiro e divino.
Essa mesma amizade, perfeita em Cristo Jesus, é causa do desejo de doar toda posse em favor desse mesmo dom, como quem encontrou a pérola ou o tesouro. Ao falar o Senhor Jesus sobre o Reino de Deus, comparando-o como a pérola achada, não se referia à amizade com Deus que faz-nos capazes de loucuras, sendo a Paixão na Cruz a sua prova? (cf. Jo 15, 13). Desse modo, a desejo da amizade com os seus fez que o Todo Poderoso entregasse a si mesmo, mas antes, num simbólico gesto, Jesus compartilha de seus bens com Pedro, interrogando-o sobre seu amor para, para em seguida, confiar-lhe sua herança: Tu me amas? Apascenta os meus cordeiros! (cf. Jo 21, 15-19).
A amizade almejada por Cristo constrange-o a entregar inteiramente em oblação, e tal como aconselhou ao jovem rico, entregou tudo de si e tudo o que tinha: sua vida e sua herança (seu povo, suas ovelhas). Nada reservando para si mesmo, esvaziou-se, conferindo à sua divina amizade um caráter incorruptível: “Eis que estarei convosco até o fim dos tempos” (cf. Mt 28, 20).
A espada e o vinho, se usados de maneira indevida, podem matar e embriagar. A amizade se não atende à sua finalidade primeira e não aquece o coração sadiamente, causa morte, divisão e vícios, uma vez que se revelam falsas e inexistentes. E talvez tenha sido uma das grandes dores do Senhor, confirmando aquilo que dizem os Provérbios: “Não é uma dor semelhante à da morte ver um companheiro e amigo tornar-se inimigo? Ó inclinação perversa!” (Prov 37, 2-3). Quando de sua entrega, Jesus reuniu-se com seus amigos, ainda não forjados pela Provação, a fim de rezar no Getsêmani, contudo, foram mais amigos do sono e do cansaço (Mt 26, 39-40ss). Mais adiante, não bastasse a sonolência, com a alma “triste até a morte” (Mt 26, 38), é traído por um beijo de um daqueles a quem considerava amigo, dizendo: “Amigo, faze o que tens de fazer” (Mt 26, 50). Por isso, repetimos: “Não é uma dor semelhante à da morte ver um companheiro e amigo tornar-se inimigo?”. A amizade divina eleva-se acima do limite humano, entregando-se voluntariamente a quem ainda não percebeu o valor da pérola.
Toda amizade, portanto, seja feita à luz de Cristo, como emanação do seu amor para conosco e de sua ânsia ardente de sermos chamados santos, seus amigos e, desfrutando do banquete eterno, já não necessitemos mais de manjares ou amores eternos, mas nos bastará somente o Todo Poderoso e compartilharemos seu reinado celeste. Enquanto vivermos entre nós esse dom celeste, poderemos experimentar a graça de imitarmos a Cristo que, nada preservando de si, comunicou-se totalmente àqueles que soprou com seu Espírito. Tenhamos santas amizades, verdadeiras amizades... amizades... como quem encontrou o Tesouro e quer compartilhá-lo a outros corações.
Aos amigos... Amo-os todos, obrigado por revelarem, de alguma maneira que não sei explicar, a face luminosa do Altíssimo.
