Fones

Eu uso fones de ouvido praticamente o dia inteiro.

Eu os uso pra me isolar da poluição sonora: As buzinas, os carros, as conversas vazias…

Os fones criam um campo de força contra serviços gratuitos e não-requeridos de meteorologia de ponto de ônibus. “Acho que vai chover”, diz o meteorologista de uma previsão só. Ao contrário do que o nome pode fazer pensar, nunca ouvi sequer uma notícia sobre meteoros.

Outros serviços não requisitados também são evitados: Opiniões sobre violência urbana, sobre política, depoimentos sobre o Pedro, o sobrinho da Dona Cátia que aparentemente não quer saber de trabalhar e agora tem uma namorada que “hmmm! não vou com a cara dessa garota”.

Não é fazer pouco caso da interação com outro ser humano. Não é sobre não saber ou não querer ouvir. Às vezes, o Seu José senta do meu lado no ônibus e, sem perceber o artefato no meu ouvido, resolve puxar assunto. Eu retiro o dispositivo e ouço o que ele tem a dizer. “E esse Flamengo, hein…”. Eu não faço ideia do flamengo, mas ele só quer conversar. Infelizmente, não é sempre que eu quero falar sobre o flamengo ou estratégias de combate ao crime organizado envolvendo alguma ave mágica e sua pena de morte.

Nesses momentos, os fones me protegem e me isolam de toda a informação externa que meu limitado cérebro não consegue processar naquele momento. Como consequência do isolamento eles acabam me jogando em um quarto desorganizado de memórias, ideias, reflexões, medos, anseios, sonhos e desejos. Tudo espalhado. Um ambiente que, apesar de caótico, me dá a mentirosa sensação de controle: a minha cabeça.

Pra mim, os fones são um artefato de introspecção, de foco e de isolamento. São um meio de transporte pra dentro de si. Um provedor da paz interna. Um anulador.

Os fones… Às vezes, eu também os uso pra ouvir música.

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