Educação, Governo Temer e a Angústia de ser Pesquisador

Ao contrário da maioria do que escrevo, este texto possui um cunho fortemente pessoal, baseado em angústias próprias. Foge à linha de qualquer tentativa de cientificização — ao mesmo tempo que demonstra a indissolúvel relação entre o analista e seu objeto, no presente caso, a atividade Acadêmica. De todo modo, não me tomem aqui por padrão: sugiro que, em caso de dúvida, pergunte ao universitário mais próximo.
“A crise da Educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Em toda minha trajetória acadêmico-profissional a famigerada, porém dolorosa frase de Darcy Ribeiro nunca fez tanto sentido. Uma rápida busca no Google demonstra, de maneira evidente, o que se pretende com a atual conformação ministerial brasileira. Uma das principais agências de fomento do país, o CNPq, admitiu não mais possuir verba para financiamento de pesquisa e pagamento de bolsas por ter atingido o teto orçamentário ainda em Agosto/Setembro de 2017. Rumores de que Instituições Federais de Ensino não possuem verbas para continuarem suas atividades são constantes. Em Sergipe, meu berço de criação e formação, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) se depara com repasses de verba cada vez mais diluídos, chegando-se ao absurdo de um corte de cerca de R$ 1 milhão de reais para a Assistência Estudantil.
Aqui nos deparamos com a realidade da Academia brasileira. Ainda antro elitista e elitizante, as Universidades passaram por um processo de relativa democratização a partir de 2003. Não nos cabendo aqui abordar o modelo adotado pelos governos à época no poder, o fato é que a Universidade, principalmente no Nordeste brasileiro, deixou de ser propriedade dos filhos dos coronéis. Tal realidade, entretanto, nunca me disse respeito. Reconhecidamente privilegiado, a minha manutenção numa instituição de ensino superior nunca esteve atrelada à necessidade de sustento familiar, muito menos impedida pela Fome — realidade de muitos no Brasil. Eu, enquanto estudante, nunca necessitei de auxílio ou assistência para ir e voltar ao campus de São Cristóvão — caminho quase que natural daqueles que passaram toda a vida escolar em instituições de ensino privada em Aracaju. Mas a realidade é outra.
A concessão de bolsas e da própria assistência estudantil na UFS não é incentivo apenas para a pesquisa e o desenvolvimento científico tecnológico — o que já seria muito. É com os auxílios concedidos pela instituição que boa parte dos alunos pagam seus aluguéis, em regiões muitas vezes periféricas, custeiam seu transporte e conseguem se alimentar. É com esse dinheiro — irrisório, vale dizer — que os alunos existem.
Nas últimas três semanas tenho cada vez mais sido acometido pela angústia que é ser Acadêmico no Brasil. Não por motivos financeiros, pois apoiado por família e ainda bolsista. Mas por deparar-me com a triste realidade de um País que negligencia sua Educação, seus pesquisadores, seu Conhecimento, seus cidadãos. Entre uma lágrima e outra tento transformar a angústia em grito, na esperança de que outros se juntem à luta constante da Pesquisa e da Educação brasileiras. Não é uma bolsa de pesquisa que está em jogo, mas um projeto de país e o futuro de 200 milhões de indivíduos, expostos à perversidade de interesses político-capitalistas. A cleptocracia que se instaurou no Brasil veio e congelou em 20 anos os gastos em Educação. Colocou em risco todo um projeto de desenvolvimento de um pensamento próprio e está, aos poucos mas com veemência, destruindo o único bem não tributável e eternamente acumulativo: o Conhecimento.
Hoje eu choro para amanhã levantar e seguir lutando. Peço que me acompanhem.
