A polêmica dos recursos temporais

Por Júlia Ferrari, Luciana Moraes e Maria Jahnel

Como flashfowards dividiram os públicos de Harry Potter e How I Met Your Mother

Nove anos após o lançamento do último livro da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte, e cinco anos após a estreia do último filme da mesma, foi lançado o oitavo livro, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada.

A nova obra, que já foi adaptada para o palco do Palace Theatre de Londres, se passa 19 anos após Relíquias da Morte, acompanhando um Harry de meia idade, agora chefe do Departamento de Execução das Leis Mágicas do Ministério da Magia, que luta para deixar seu passado para trás e lidar com seus filhos, em especial o mais novo, Alvo, que é aluno de Hogwarts e herdeiro de um legado que ele nunca quis.

(Fonte: divulgação Enterteinment Weekly)

Recursos temporais são muito comuns em narrativas longas, por exemplo, a saga de J.K. Rowling e grandes programas de televisão, como novelas e seriados. Flashbacks e flashfowards ajudam no desenvolvimento dos personagens, especialmente em casos que a história dura muitos anos.

A série americana How I Met Your Mother, transmitida entre os anos de 2005 e 2014 pelo canal CBS pode ser considerada um grande flashback: se trata de um pai, Ted (Josh Radnor), que conta a seus filhos adolescentes como ele conheceu a mãe deles, sendo assim, cada episódio um flashback de um acontecimento que o levou a conhecê-la.

Durante as nove temporadas, os fãs acompanharam o envelhecimento dos atores e dos personagens. No entanto, o último episódio da série, que foi ao ar dia 31 de março de 2014, apresentou vários saltos temporais, e seu final foi bem polêmico.

Conversamos com alguns espectadores da série para discutir a necessidade desse salto e questionar qual a posição deles em relação ao final.

(Fonte: divulgação CBS)

O último episódio da série agradou Marco Antônio, 17: “Gostei do avanço de tempo do último episódio, porque os personagens estavam se distanciando e não tinha como a história ficar presa a isso”. Segundo ele, não foi um problema ver os personagens mais velhos.

Já Thiago,18, disse não ter gostado do desfecho: “Achei o formato batido e sem inovação, usa os mesmos recursos de séries consagradas, como Friends. Gostaria de um final mais criativo que não reiterasse os clichês”. Para ele, o avanço de tempo é natural, mas, de novo, um recurso estilístico velho e muito utilizado nas séries desse tipo. “Queria uma coisa nova” resume. Maria, 19, também não gostou da conclusão: “Parece que a personagem da mãe foi apresentada para que Ted tivesse os filhos que Robin não podia ter”, disse, se referindo ao fato de o personagem de Josh Radnor ter tido, no primeiro ano da série, um relacionamento com a personagem de Cobie Smulders, Robin, que era estéril. O salto temporal também não agradou Maria: “Ficou muito corrido e mal explicado, me deixou com algumas dúvidas do que aconteceu naqueles anos que não foram mostrados”. Apesar disso, ela não teve problemas com o envelhecimento dos personagens.

Mesmo depois de dois anos que o último episódio foi ao ar, alguns fãs ainda não tem uma opinião formada sobre o final da série. Izabela, 20, se sentiu um pouco dividida entre as personagens Robin e Tracy: “gostei do final da série, mas parece que eles [os criadores] aceleraram muito certas cenas que eu queria ver mais. Esperava que eles dessem mais importância para a mãe, por exemplo”. Sobre a vida amorosa do protagonista, ela pontua que “tiveram várias outras mulheres aleatórias na vida do Ted que apareceram muito mais do que ela [a mãe] ao longo da série. Fiquei esperando que contassem mais características dela, para mostrar porque era ela a escolhida”. Ela diz que não teve problema nenhum em ver os personagens mais velhos, mas que sentiu falta de mais explicações sobre como as coisas aconteceram durante esse tempo todo.

(Fonte: divulgação CBS)

Já Marina, 20, tem uma opinião contrária a respeito do avanço de tempo: “o final da série poderia ter sido melhor, mas gostei. Achei que a última temporada conseguiu resumir bem o ‘espírito’ da série, em especial os últimos episódios. O avanço de tempo aconteceu naturalmente, não ficou forçado”.

De um lado, alguns fãs reclamaram que o último episódio não mostrou tanto a “gangue” junta, os cinco conversando no bar, por exemplo. De outro, fãs justificam que ao mostrar um certo distanciamento entre os personagens (mesmo que temporário), a série ensinou mais uma lição de vida: mesmo melhores amigos podem se afastar um dia. Talvez a polarização do público tenha acontecido justamente pelo avanço no tempo, que foi uma maneira rápida, porém arriscada, de terminar a série.