Os impasses da cobertura jornalística nas eleições

Cobertura, informação ou propaganda: até que ponto vai a influência?

Por Andressa Lima e Fred Lopes

Foto: Fred Lopes / Acervo pessoal

Um dos maiores símbolos da democracia representativa moderna, a eleição é o momento de selagem do pacto social entre população e representante. Se outrora apenas a elite concorria eleições, a situação atual tende a ser mais inclusiva: para ser candidato é necessário ser natural do Brasil, residir na região onde pleiteia o cargo, ter pleno exercício de seus direitos políticos e estar filiado a algum partido há pelo menos seis meses antes das eleições. Cada político eleito exerce o mandato por quatro anos, exceto senadores, que ficam por até oito. Candidatos ao Legislativo podem prorrogar seu tempo no poder de forma indefinida, desde que concorram em novas eleições. Já para o Executivo, o limite é de uma reeleição consecutiva.

Uma cobertura de eleição é essencial para a população formar sua opinião sobre os candidatos, mais até que o horário eleitoral gratuito. Isso porque é através dela que os eleitores julgam os concorrentes. “Cabe à imprensa apresentar o candidato à população, analisando: se suas propostas são viáveis; se o seu discurso é coerente e condiz com o que o candidato prega; mostrar quem são os financiadores de sua campanha e o que o seu currículo e programa de governo ou plataforma de campanha podem indicar sobre ele”, diz a repórter de El País, Marina Novaes.

A falta desses cuidados pode afetar diretamente o resultado do processo eleitoral, especialmente quando este ainda está em curso. “Lembremo-nos das últimas eleições presidenciais [em 2014]: a revista IstoÉ passou todo o mês do segundo turno divulgando uma pesquisa notoriamente fajuta, montada para favorecer o candidato do PSDB. Outro exemplo histórico aqui é a eleição de 1989 e o debate Collor-Lula”, acusa o editor-executivo de CartaCapital, José Antonio Lima. Ele ainda explica que emissoras deveriam ter obrigação legal de serem isonômicas, até mais que jornais e revistas, uma vez que são concessões públicas.

Por conta de toda essa complexidade, a atenção de quem escreve sobre o mundo da política deve ser redobrada. O volume de dados para checagem é imenso, tornando o trabalho do jornalista indispensável. Uma boa cobertura tenta reportar sobre todos os candidatos de maneira igual, mesmo que seja impossível ouvir todos os que concorrem à Câmara de uma cidade como São Paulo, por exemplo. Lima ainda aponta: “ao fazer uma série de entrevistas com os candidatos, é importante entrar em contato e oferecer tempo isonômico para todos eles. Cabe a ele aceitar ou não”. Logo, é dever do veículo, mais que nunca, tentar alcançar certa neutralidade para manter o equilíbrio.

É responsabilidade do jornalismo levar os fatos ao conhecimento público. Isso, contudo, não pode ser confundido como um meio de favorecer ou não determinado partido. “Os candidatos, de qualquer espectro, sabem o que esperar [quando o veículo toma uma posição específica], é uma relação mais transparente” explica o editor de CartaCapital. Dessa forma, o profissional deve ter ciência que a linha editorial não deve servir de pretexto para simpatia ou hostilidade a qualquer candidato.

Apesar das intenções, nem sempre é possível viabilizar uma cobertura de forma totalmente igualitária. Por isso, na hora de definir quem terá maior destaque durante a cobertura, muitos fatores influenciam. “Pesquisas eleitorais, se o partido tem representatividade no Legislativo ou no Executivo, o histórico e perfil do concorrente” são alguns dos itens a serem levados em consideração, elenca a repórter de El País.

Foto: Fernando Pereira / Secom / PMSP

Ainda assim, o jornalista não pode se isentar de fazer perguntas consideradas incômodas aos candidatos, pois são esses questionamentos que mais ajudam as pessoas a escolherem em quem irão votar. Por exemplo, se o candidato propõe algo que está além de sua futura função, o jornalista deve expor ao eleitor essa inviabilidade, com justificativas. “Se comprovado que tal proposta é, de fato, inviável, o jornal deve dar uma chance para o candidato tentar se explicar. O dever do candidato é responder, não ao jornalista em si, mas aos eleitores”, ressalta Novaes.

É durante o período de eleições que a impossibilidade de isenção total de opinião fica nítida. Escrever é um ato humano e, como tal, está sujeito às ideias, conceitos e valores do indivíduo que assina o texto. Logo, um veículo que se vende como absolutamente neutro é tão irresponsável quanto aquele que faz panfletagem ou que só ouve um lado da história. Deixar claro a linha editorial seguida vai além de honestidade para com o público: significa ter real compromisso com a verdade.

Pesquisa de consultas relacionadas aos candidatos a Prefeitura