Envelhecer não é brinquedo

Após 15 anos do lançamento do primeiro filme da trilogia “Toy Story”, Andy vai para faculdade e é obrigado a desapegar dos amigos que fizeram sua infância

Por Guilherme Prado

Em janeiro de 1995, estreava o filme que marcaria a vida de uma série de crianças. O primeiro longa-metragem da história do cinema feito totalmente em computação gráfica trazia como protagonista um cowboy de brinquedo feito de pano e melhor amigo de um menino de oito anos. A magia da produção acontece pelo reconhecimento da geração de espectadores que cresce ao lado do garoto e que passa a vida inteira sem saber se seus brinquedos têm vida bem como os de Toy Story.

Mesmo que Wood, Buzz Lightyear, Sr. Cabeça de Batata, Slinky e Rex não existissem de fato na vida real, a legião de fãs da trilogia se identificou com a relação entre Andy e seus brinquedos, se sentindo de certa forma donos deles. Conforme cresceram, entenderam o que é amadurecer, apesar do desapego doloroso. O sentimento dos pequenos amigos de serem trocados ou esquecidos envolve os três filmes e se acentua no segundo, de 1999, quando Jessie entra na trama após ser abandonada por sua antiga dona.

Em Toy Story 2, o amadurecimento não se nota só no menino, bem como em sua mãe e sua irmã. O dublador de Andy é alterado para que o personagem aparente estar mais velho, com um tom não tão agudo de voz. Com 2 ou 3 anos a mais que no filme original, Molly está mais velha, já fala e ganha destaque ao ser a nova a amiga da cowgirl.

O terceiro filme é marcado pelo aparecimento de uma série de personagens. Ao longo da história, fica claro que Boonie é a nova figura central da trama. A meiga menina é amiga da família de Andy e estuda em Sunnyside, para onde os brinquedos do menino são doados. Na creche, os amigos enfrentam as mais impossíveis e absurdas situações para voltar para casa e chegarem a tempo de encontrar o dono antes de partir. Influenciado pela mãe, o garoto toma a decisão de conceder a pequena a missão de cuidar dos velhos parceiros.

Assistindo os três filmes, é possível concluir que o conjunto é uma reflexão sobre o final definitivo da infância. O mundo da fantasia, onde brinquedos poderiam falar e interagir com crianças, fica para trás. Na última cena do 3º longa, quando Andy entrega a Boonie seus amados amigos, ele na verdade confia a ela a chave do portal de sua terra mágica.

Crescer envolve dois sentimentos que conflitam: o de perda e de conquista. Quando o jovem vai para faculdade, ele já está de carro e deixa para trás muito mais que os brinquedos, como sua família. A situação é semelhante a de Hermione Granger, da saga Harry Potter, que é obrigada a abandonar os pais e apagar suas memórias para que possa traçar sua própria trajetória.

Abandonar os brinquedos é uma ação essencial para que a nova fase da vida dele se inicie. Andy é obrigado a desapegar desse passado materializado nos objetos que passa a viver somente em sua memória. Cada um deles conta uma história e carrega lembranças. Naquele momento, o jovem perde a dependência dos pais enquanto conquista a maturidade. Esse processo é natural para qualquer pessoa e é exatamente por isso que a “última brincadeira” entre os amigos arranca lágrimas de todos os espectadores.