Nos tempos da Galeria

Por Ana Carolina Garcia, Júlia Bulbov e Julia Fregonese

Bruno, 15 anos, é um personagem fictício do livro “No tempo das telas, reconfigurando a comunicação” dos autores Pollyana Ferrari e Fabio Fernandes, mas bem que poderia ser um garoto real. Ele é viciado em redes sociais, no mundo web e adora rock nacional como as bandas NXZero e Fresno.

Em uma passagem do livro, Bruno vai até a Galeria do Rock acompanhado por sua mãe, negocia um alargador, compras algumas camisetas e um ingresso para o show da banda nacional Fresno.

Esse personagem representa várias pessoas que passam por esse lugar emblemático na cidade de São Paulo. Para evidenciar essa ideia, Ana Carolina Garcia, Julia Bulbov e Julia Fregonese foram até a Galeria do Rock entrevistar quem tem o costume de passar por lá. Apesar de parecerem “casca grossa” e parados no tempo de Led Zeppelin e Queen, todos estão conectados à internet como Bruno. Assim, não existe mais separação entre o mundo off e online.

Decidimos ir à Galeria do Rock, localizada na República, para achar os Brunos que frequentam o lugar. A primeira coisa que reparamos foi a quantidade de famílias com crianças pequenas que estavam passeando por lá, olhando as vitrines de camisetas, acessórios e action figures. Isso já mostra como a ideia da Galeria deixou de ser algo exclusivo para aqueles que curtem rock e tatuagem para ser um espaço de encontro entre diferentes tribos e movimentos.

A nossa ideia era simples: perguntar às pessoas que ali trabalham ou frequentam qual foi a primeira banda que as introduziu ao rock.

A primeira pessoa com quem conversamos foi Amanda, de 31 anos. Ela trabalha em uma das lojas de camisetas. Quando perguntamos qual havia sido a banda que a fez começar a ouvir rock ela disse quase no mesmo segundo “Nirvana. E Ramones. Mas eu ouço muito Metal Extremo”. E citou várias bandas desse último gênero, da qual apenas conhecíamos uma, Dismember. E ainda acrescentou: “Mas eu também gosto muito do rock dos anos 80. Duran Duran, The Cure…”. Agradecemos por sua colaboração e fomos procurar nossa próxima cobaia.

Entramos em outra loja, dessa vez de bijuteria e acessórios, e encontramos três amigos conversando. Cleide (40), Daniel (44) e Daniel (24). Sim, dois Daniels. Fizemos nossa pergunta e Cleide respondeu na hora. “Putz, pra mim foi Black Sabbath”. Já Daniel, parou para pensar um pouco e disse: “Então, meus pais ouviam muita coisa antiga. Foi a primeira vez que eu ouvi rock. Então foi Elvis, Johnny Cash… Ouvia dos Long Plays deles”. O outro Daniel teve que sair da conversa para atender um cliente, então não conseguiu nos responder. Mas Cleide teve um “clique” e disse: “Nossa cara, você me fez pensar num negócio que eu não tinha pensado antes. A primeira coisa que eu ouvi foi Johnny Rivers, porque meus pais ouviam Johnny Rivers”.

A próxima pessoa com quem conversamos foi Jonathan (26), que não é um fã assíduo do rock, mas de rap. Quando perguntamos quem foi o primeiro rapper ou grupo que ele havia escutado ele disse timidamente depois de pensar um pouco “Charlie Brown Jr”. Fica aqui um lembrete de que Chorão, vocalista do grupo, e Champignon, ex-baixista, morreram em 2013 devido a uma overdose de cocaína e a suicídio, respectivamente. A banda Charlie Brown Jr fez muito sucesso no Brasil, criando hinos da geração dos anos 90 e 2000.

Wesley, nossa próxima vítima, de 52 anos, brincou quando perguntamos se podíamos tirar uma foto sua. “Cuidado, que eu vou queimar o filme de vocês. As pessoas vão ficar assustadas”. Depois perguntamos sobre sua banda introdutória. Ele olhou para a própria camiseta e apontou: “Foi AC/DC”.

Depois escolhemos um grupo de três amigos: Carol (18), Tainara (18)e Pedro (17). Carol respondeu à nossa pergunta com Led Zeppelin. Tainara com System Of a Down. Pedro se absteve.

Tatiana (24) estava olhando para o celular quando a abordamos. Quando explicamos nosso trabalho, ela contou que fazia design e se ofereceu para divulgar as fotos na agência de sua faculdade. Respondendo à nossa pergunta chave, ela disse “Green Day. E Beatles”. Pegamos seu nome completo para podermos enviar sua foto depois.

Nossas últimas vítimas foram dois amigos, Matheus (22)e Eduardo (15). Os dois não ouviam muito rock, mas gostavam muito de rap. Matheus conheceu o rap através de um amigo, Kaíque, que fazia uns versos em seu bairro e depois disso não teve volta. Já Eduardo começou através do Sabotage. Recentemente um álbum póstumo foi lançado com o nome do rapper como título. Sabotage foi assassinado em 2003.

Algo que percebemos de nossas conversas com as pessoas da Galeria do Rock foi como o meio pelo qual se ouve música mudou. Os mais velhos ouviam Johnny Rivers, Elvis e AC/DC através de LP’s. Gerações mais novas já haviam sido introduzidas ao cd. E os jovens que apenas agora passaram a ouvir rock e rap conheceram através da rede e de aplicativos de streaming, como o Spotify e YouTube. Conforme novas bandas e músicos surgem, muda-se o caminho pelo qual ouvimos suas músicas.

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