Telas se convertem em vitrines: a superexposição da vida nas redes

Por Andressa Lima e Fred Lopes

Fonte: Projecttus (Reprodução)

Em No tempo das telas: reconfigurando a comunicação, os autores Pollyana Ferrari e Fabio Fernandes retratam oito diferentes personagens e como eles se relacionam através das novas tecnologias de comunicação. Mediando seus contatos interpessoais através de telas, sejam elas celulares, tablets ou computadores, esses personagens representam pessoas da vida real e, por isso, estão longe de serem apenas ficcionais.

Editora Estação das Letras, 2014

Hoje cada vez mais pessoas têm acesso a aparelhos que, conectados à internet, oferecem uma variedade de opções de interação online. Com o advento e a popularização das redes sociais, não são poucos os sites e aplicativos presentes no dia-a-dia. Facebook, Twitter e Instagram são apenas algumas das plataformas que mediam relações, sejam elas de trabalho, acadêmicas, amorosas ou pessoais.

Essas redes acabam se convertendo em vitrines que expõem aspectos da vida antes considerados meros hobbies, como é o caso da blogueira-Capricho Ana Beatriz, uma das personagens do livro de Ferrari e Fernandes. A adolescente de 14 anos, com tendência à bulimia e anorexia, se orgulha de sua coleção de esmaltes e de ter um Twitter com mais de 2 mil seguidores que já foi #TrendingTopics. Ana tem um Tumblr só de maquiagens e esmaltes, o que faz seu perfil atrativo até mesmo para jornalistas do meio e empresas interessadas em divulgar seus produtos.

De certa forma, Ana Beatriz é uma digital influencer que, através do seu iPhone, compartilha seus gostos na internet na mesma medida em que está disposta a tudo para ter um número de seguidores cada vez maior. A adolescente, no entanto, representa inúmeras garotas que, assim como ela, encontram nas telas uma forma de mediar suas relações com seguidores e fãs das redes. Logo, ela é apenas mais uma entre várias dessas meninas.

Para Juliano Paz Dornelles, Mestre em Comunicação pela PUC-RS, “a internet tornou-se um grande reality show, onde muitos consomem histórias reais e estórias inventadas de muitos outros. Um grande mercado onde são comercializados novos caminhos, fórmulas de sucesso e estilos de vida”. Para manter esse mercado abastecido vale tudo, até mesmo a superexposição da vida particular com o intuito de entreter, já que esse é o “combustível de luxo do capitalismo contemporâneo” (SIBILIA, 2008, p. 10).

Nesse contexto, o que se vê é uma fusão do ciberespaço com a realidade fora dele, como observa Paula Sibilia em O Show do eu: “Desmancham-se as fronteiras que separavam ambos os espaços em que transcorria a existência, desafiando as velhas categorias e demandando novas interpretações”. As pessoas passam a incorporar seus avatares, que se convertem em sua persona online.

Se antes o YouTube era tido como um mero reprodutor de formatos já consagrados na televisão, hoje os canais dessa rede vêm ganhando seu próprio estilo. Há cinco anos, era comum que um grupo de pessoas vissem no YouTube a chance de terem seu próprio “programa”: Parafernalha e Galo Frito reinavam na web, ao lado de Felipe Neto, que também assumia esse formato — seus vídeos funcionavam como episódios e quadros. Hoje, no entanto, os canais ganharam sua própria configuração, em um estilo de vlog diário. Whindersson Nunes, Kéfera Buchmann (5incominutos) e Júlio Cocielo (Canal Canalha) representam essa nova geração.

Com essa mudança, o conteúdo veiculado nos canais apela, cada vez mais, para vida privada — que já não é mais tão privada assim. Em alguns casos, como o da youtuber Jout Jout, os roteiros passam a ser dispensáveis na maioria dos vídeos, dando lugar ao improviso e ao fluxo das ideias. Tags e correntes, com o objetivo de tornar o youtuber “mais conhecido” pelos seus seguidores, buscam construir uma intimidade com o público ao mesmo tempo em que reforçam a superexposição da vida nas redes.

Valdir Mengardo, Mestre em Comunicação pela USP e professor da PUC-SP, comenta as transformações pelas quais a sociedade passa nesse contexto de relações permeadas pelas redes e também a questão da utilização da internet para fins de entretenimento.

Por mais cotidiana que a vida exposta nas redes pareça, ela ainda precisa passar pela aceitação do público e se moldar a ideias pré-estabelecidas. Em tempos em que o público consegue demonstrar facilmente sua aprovação ou não, seja através de comentários ou curtidas, fica cada vez mais difícil dizer que as telas servem apenas de suporte para uma interação: elas são verdadeiros filtros de conteúdo.