Uma vida protagonista

Personagens marcantes acabam “matando” carreira de atores da dramaturgia nacional

por Leonardo Machado e Pedro Suaide

Papeis marcantes em tramas são usualmente disputados a tapa pelos intérpretes no Brasil e no Mundo. Agostinho Carrara, Carminha, Crô, Nazaré e tantos outros personagens marcaram época na história televisiva brasileira, e tem em comum uma via de duas mãos: o sucesso e reconhecimento de uma grande atuação e, ao mesmo tempo, uma dependência que coloca o ator/atriz em uma quase eterna prisão, na qual uma não consegue se desvencilhar da outra.

Após 14 anos no ar na Rede Globo, Pedro Cardoso, o Agostinho de “A grande família”, é um dos atores que mais tem sua carreira vinculada a um só personagem, tendo praticamente sumido das telas após o final da maior série televisiva já produzida.

Pedro Cardoso, em entrevista à Radio Jovem Pan, após o término da trama, afirmava sentir uma certa “mágoa” da emissora (Globo), citando que mesmo após mais de três décadas de serviços prestados não teve nenhum dos projetos que propôs aprovados e se desligou de vez.

Para o telespectador André Silveira, 19, porém, a decadência na carreira tem relação com o personagem, como afirma, “acredito que a saída do ator que interpretou Agostinho Carrara (Pedro Cardoso) da Rede Globo é diretamente relacionada à sua força como tal personagem. Independentemente do papel que ele interpretasse em qualquer filme, novela ou série, ele sempre seria Agostinho, sempre seria um taxista e sua imagem será sempre ligada à esse papel”.

Da mesma forma, com mais de 40 anos de atuações pelos palcos e dezenas de trabalhos já realizados em grandes novelas, Nazaré Tedesco é a primeira imagem que vem à mente quando se pensa na atriz global Renata Sorrah, que em 2004 atuou no papel da épica vilã criada por Aguinaldo Silva.

A prostituta, que era capaz de tudo para conseguir separar o amante da mulher Maria do Carmo e da filha, caiu no gosto do público e entrou para a história como uma das maiores vilãs da dramaturgia de todos os tempos, o que acabou por ofuscar o resto de uma longa e gloriosa carreira da atriz.

Os personagens podem envelhecer?

Outra discussão que cerca os grandes personagens de novelas, filmes e séries é uma questão inevitável à vida humana: o tempo, e ele passa para todos, até mesmo nas “telinhas”. Recentemente a renomada autora de série Harry Potter, J.K.Rowlling, lançou um novo livro chamado “Harry Potter e a criança amaldiçoada”, uma adaptação da peça teatral baseada na saga do bruxo. Na obra Harry envelhece e começa a passar por problemas da meia idade, como trabalho, infelicidade, problemas em casa e outros.

Com base no novo lançamento, uma onda de discussões nas redes sociais foi criada entre fãs que apoiam e os que criticam “mudar” um personagem, como ocorre com o jovem bruxo que já não é mais tão jovem, e que agora não se preocupa só com ameças das trevas.

O verdadeiro envelhecimento que intriga os fãs, porém, não se trata de uma questão física, mas sim social. Os heróis não podem simplesmente deixar de serem heróis para se tornarem chefes de família, desempregados, infelizes. De certa forma a magia acaba para todos os personagens um dia, e isso é inevitável. Jamais Harry Potter será o mesmo tendo filhos, problemas e coisas que são além de uma incansável luta contra as trevas.

Cabe aos autores e intérpretes se desdobrarem de forma a prolongar a magia que envolve o mundo fantasioso das telinhas e das telonas, como fez Pedro Cardoso por quase 15 anos, em “A grande família”, quando mesmo envelhecendo, a família continuou sendo a mesma dos primeiros episódios, com novos personagens e histórias, é claro.

Pedro Cardoso no papel do taxista carioca Agostinho Carrara

Nos últimos anos de série diversas mudanças foram ocorrendo, Agostinho (Pedro) foi ficando mais bem-sucedido na Carraras Taxi, teve um filho — Florianinho, Lineu ficando mais velho, Tuco vai deixando de ser o filho solteirão que mora com os pais e assim por diante.

Acima de tudo, as histórias não conseguem passar por cima da vida real, e mais dia ou menos dia os personagens começam a morrer, assim como seus intérpretes.

Vale a pena morrer com um personagem?

Tanto se consagrar com um personagem, quanto ter uma carreira mais diversificada e plural são propostas interessantes para quem os interpretar. Essa é uma via de mão dupla real tanto para renomados, quanto para os mais jovens e aspirantes atores, como a atriz Juliana Suaide, 26, que afirma, “eu amaria fazer um personagem desses que ficam para sempre, mas não são todos os atores que sabem lidar com isso depois também”.

Além de tudo, muitos atores conseguem, mesmo sem escapar totalmente de um personagem, se reinventar, como é o caso da atriz Emma Watson, que interpretou a jovem bruxa Hermione Granger, e que após o fim da saga já interpretou em outras grande produções, como a nova versão de Bela e a Fera que deve estrear no começo de 2017. O mesmo ocorre com seu companheiro Daniel Radcliffe, que interpretou o famoso bruxo Harry Potter e que, mesmo sendo sempre chamado de Harry pelos fãs, conseguiu se firmar com um grande ator, já estrelando sucessos como “Truque de Mestre 2”.

Ter seu nome esquecido para se tornar um personagem na vida real é uma realidade que tanto namora quanto assusta atores. Agora, para nós, telespectadores, é essencial que nossos ídolos das telas transcendam e nos acompanhem na vida real.