Urbanização, sociedade colaborativa e um novo jeito de morar

Vivemos numa época onde mais da metade da população mundial é urbana, fruto de um êxodo rural que teve início no começo do século XX e foi mais acentuado conforme o grau de desenvolvimento da sociedade. Afinal, o adensamento urbano trás mais eficiência nos usos dos recursos, encurta as distâncias e facilita a difusão de costumes e ideias. Mas as pessoas pensaram nisso ao mudar para as cidades?
Enxergar o movimento de uma sociedade anos depois do acontecimento é talvez um exercício de abstração, pois enxergamos um movimento extremamente coordenado a partir de diversas ações caóticas e individuais. Por que o indivíduo se mudou para a cidade? Ora, as cidades concentram o que há de mais avançado numa sociedade, são polos de desenvolvimento, lugares onde existe saneamento básico, energia e tudo o que o dinheiro puder comprar. Ah, o dinheiro! É lá onde fica o dinheiro. Portanto, de uma maneira simplista, o dinheiro e as melhores condições de vida foram motivadores individuais para essa tendência de urbanização.
Não vamos entrar no porquê das cidades nesse momento, mas simplesmente perceber o quê. O que está acontecendo nas cidades atualmente e que vem acontecendo gradualmente desde o início da urbanização? Os espaços estão acabando. Ou melhor, os espaços estão diminuindo. Conforme o tempo passa, desenvolvemos um aproveitamento cada vez maior dos espaços, com uso dos subssolos e edifícios mais altos, porém a superfície está esgotando, então para caber mais gente é preciso dividir em partes menores.
As cidades cresceram e expandiram, do centro à periferia, e esse movimento continua até atingir o amadurecimento, que é difícil de ser definido mas é possível ser percebido. Chega um momento em que a cidade para de crescer para os lados e começa a crescer para cima, começa a adensar cada vez mais e sempre próxima ao seu “centro de gravidade”, que normalmente são nos bairros centrais, cujo acesso é mais fácil e existe abundância de recursos — transporte, dinheiro, comércio, serviços, habitação, pessoas… Quanto mais pessoas na cidade, mais trânsito, mais tempo gasto com transporte quanto maior for a distância à esse centro. E distância não é necessariamente definida pela pelo espaço físico entre um ponto e outro, mas pela facilidade, conforto e tempo para percorrer esse espaço. A tendência é que toda a cidade queira estar cada vez mais perto desse centro, todos querem morar na região onde trabalham e gastar menos tempo com esse transporte, portanto existe uma demanda enorme por essa região e os prédios ao redor começam a ficar cada vez mais altos (até o limite da legislação) e os terrenos aos poucos vão se esgotando. Com isso é inevitável que os preços dos imóveis subam e fique mais caro morar nessa região, quanto mais próximo estiver do centro. Quando dizemos mais caro, nos referimos ao valor do espaço, portanto ao valor do m2 do imóvel.
A partir desse momento, o indivíduo teve que tomar uma decisão: morar próximo do centro em um apartamento menor, ou morar afastado em um apartamento maior, pagando o mesmo valor? Qual seria/foi a sua escolha nessa situação? Em São Paulo por exemplo, uma pessoa pode morar em uma casa de 300m2 no condomínio fechado de Alphaville, ou num apartamento de 100m2 no coração do jardins. Vamos aceitar que não há uma resposta certa pois cada um tem suas preferências, mas ainda assim parece que tem crescido o número de pessoas dispostas a morar em apartamentos menores mais próximos ao centro.
Podemos citar inúmeras justificativas para essa tendência, entretanto estamos interessados em uma em particular: compartilhamento. Isso mesmo, não parece fazer muito sentido mas vamos chegar lá!
A economia colaborativa está revolucionando a dinâmica das cidades, com compartilhamento de carros, compartilhamento de ferramentas, animais, roupas, bicicletas, dinheiro e até mesmo dos apartamentos. Parece que existe uma nova geração que não é mais a geração das posses mas sim a geração do compartilhamento. Para que eu preciso comprar uma furadeira se vou usar uma vez por ano? Por que vou deixar meu carro e minha casa parados enquanto eu passo um mês de férias? Será que eu não posso deixar meu cachorro com aquele cara que mora no prédio da frente enquanto viajo pelo final de semana?
Essa é uma geração nova, que evita o desperdício e evita o acúmulo do que não é essencial no dia a dia, que prefere o compartilhamento daquilo que é esporádico pois é mais fácil, não exige espaço nem manutenção. A sociedade do compartilhamento é mais eficiente como um todo, pois os objetos e os espaços estão sendo úteis a todo momento e sempre tem alguém querendo fazer aquilo que você precisa (como passar uns dias com seu cachorro).
É a partir dessa ótica que também faz sentido a tendência de morar em apartamentos menores. As áreas que não são essenciais no dia a dia dos apartamentos estão sendo descartadas, os espaços são menores, as pessoas guardam menos coisas, é tudo mais minimalista e funcional. A sala que antes era usada só para dias de festa não existe mais. O quarto de empregada não precisa, agora são chamadas diaristas. Os armários e depósitos diminuíram de tamanho já que as pessoas guardam menos objetos. Área de serviço para máquina de lavar? Se posso terceirizar, não é essencial. Dessa maneira, cada espaço da habitação está sendo posto em cheque, o que é realmente essencial?
Em consonância com essa tendência, os prédios estão investindo muito mais nas áreas comuns para criar espaços que irão suprir essas necessidades esporádicas dos moradores, passando a ser quase que uma extensão de seus apartamentos. Existe um salão de festas, bar, sala de jantar, área de serviço com máquinas de lavar, depósitos, biblioteca, brinquedoteca, e por ai vai. Todos aqueles espaços que não serão usados no dia a dia e podem ser compartilhados estão saindo dos apartamentos e indo para as áreas comuns do prédio, que às vezes engloba até serviços de diaristas e manutenção dos apartamentos como funções comuns.
A mudança na forma de morar é apenas uma das grandes mudanças que podemos perceber a cada ano nessa sociedade tecnológica e dinâmica na qual vivemos. A economia colaborativa é apenas uma pequena parte da justificativa dessa mudança. Existem infinitas mudanças e infinitas pequenas justificativas para cada uma, mas enxergar uma mudança, por menor que seja, e procurar os motivos para ela é um exercício de entender esse conjunto de indivíduos e tentar compreender para onde estamos caminhando.
Não tenho a pretensão de explicar esse movimento das cidades, apenas gosto de refletir sobre as mudanças da sociedade e procurar tendências para o futuro. Além disso, faço parte dessa geração colaborativa, portanto também gosto de compartilhar minhas ideias e ouvir a dos outros. Afinal, acredito que o maior bem que podemos compartilhar é o conhecimento.