A AUTORIDADE DO ARGUMENTO COMO RESISTÊNCIA

O projeto de tentar me tornar um autor e passar a falar em meu próprio nome, utilizando-me de conceitos e argumentos de minha autoria, sem me apoiar na autoridade de ninguém; de nenhum grande autor ou autora como Dworkin, Habermas, Luhmann, Kelsen, Butler, Foucault ou mesmo Neumann – ainda que em diálogo com todos eles – decorre de meu livro anterior “Como Decidem as Cortes” que diagnostica, problematiza e critica a prevalência de argumentos de autoridade no Direito brasileiro, inclusive o uso da Filosofia do Direito como recurso superficial, supostamente erudito, com a finalidade de impressionar ouvintes e leitores pela erudição do/a jurista de plantão e não pela complexidade da argumentação.
Modestamente, minha forma de resistir a esta tendência é recusar-me a ser a filial brasileira de qualquer autor estrangeiro, recusar-me a ser um mero comentador de teorias célebres e poderosas para tentar, a partir de agora, a desenvolver uma posição própria a partir de minha situação de intelectual periférico, trabalhando em um país periférico e tradicionalmente subalterno no campo da cultura e em uma Universidade jovem e não tradicional, publicando meu trabalho mais autoral até agora por uma editora fora do circuito comercial-midiático de forma auto-financiada.
Desta forma, como um autor não célebre e não estrangeiro e ainda vivo, escrevendo em uma Universidade emergente, pretendo tentar evitar que o meu texto sirva de munição ao arsenal de autoridades que alimentam a racionalidade de nosso pensamento jurídico como eu o descrevi em meus textos.
Não quero ser uma autoridade, mas o autor de um pensamento, UM pensamento entre outros tantos possíveis.
Não me cite sem ler e sem antes discordar: você não ganha nada, nada mesmo, com isso!
Para a finalidade específica de impressionar seu leitor ou leitora, cite Habermas, cite Kelsen, cite Luhmann ou autores e autoras mais recentes de Harvard, Yale, Oxford, Frankfurt e tantas outros centros tradicionais de poder acadêmico.
A autoridade que eu desejo se alimenta, justamente, de minha relativa desimportância. institucional, de minha ausência de carisma e solenidade, e talvez, principalmente, na eventual força de meus argumentos.
JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ é Professor de Direito da UNISINOS e Pesquisador do CEBRAP
