A RESPONSABILIDADE DAS PESSOAS PROFESSORAS
As acusações se assédio a um aluno de Doutorado que pesam sobre Avital Ronell, professora da NYU e estrela dos meios de esquerda parecem nos ensinar e nos fazer lembrar de algumas coisas importantes:
1) O meio acadêmico, especialmente a pós-graduação, é envolvente e sedutor: estamos lidando o tempo todo e muito de perto com pessoas que partilham de interesses semelhantes aos nossos, pessoas inteligentes e muitas vezes fascinantes. Ademais, há a óbvia diferença de idade e as fantasias mútuas que envolvem pessoas mais novas e mais velhas;
2) É muito comum as amizades e relações das pessoas da academia acabarem restritas a esse círculo, o que limita as possibilidades de relacionamentos de qualquer natureza a esse meio;
3) Somos todos seres humanos movidos por paixões e pela razão ao mesmo tempo, padecemos de fragilidades intelectuais e emocionais que podem nos levar a tomar atitudes das quais nos arrependeremos depois;
4) É dever das pessoas que ocupam cargos de poder, os professores e professoras, tematizarem tudo isso e tomarem todos os cuidados para evitar que este tipo de problema ocorra, inclusive buscando amizades e relacionamentos fora da academia e evitando sistematicamente misturar demais relações pessoais e profissionais com alunos e alunas;
5) Ao invés de discutir esses problemas abertamente, estamos seguindo por uma linha criminalizante e violenta que se contenta em responsabilizar apenas a pessoa individual. (que deve ser responsabilizada, sem dúvida, especialmente por ocupar uma posição de poder) sem refletir sobre o ambiente e suas armadilhas e sem tomar medidas preventivas que evitem este tipo de situação;
6) As cenas de assédio não são apenas de homens contra mulheres, o cenário é bem mais complexo: como nos ensinam os clássicos, estar em uma posição de poder é altamente sedutor, é algo atraente para as pessoas, que praticamente se matam pelos cargos e pelos favores das pessoas poderosas, circunstância que abre a oportunidade para todo tipo de abuso;
7) Nessa vida que, no fundo, não faz sentido algum ou, para as pessoas religiosas, essa vida de Deus, cujo sentido muitas vezes colocamos em dúvida, porque a fé, afinal, não é isenta de momentos de dúvida e de fragilidade, possuir alguma distinção, poder dizer que se é diferente ou superior aos demais, sentir que somos mais sábios e mais admirados do que os reles mortais, é alvo de paixões, desejos e tentações que devem ser objeto de reflexão e devem estar sujeitas a mecanismos de controle interno e externo, em especial quando envolvem relações de poder institucional e profissional.
O caso:
https://www.thecut.com/2018/08/avital-ronell-professor-accused-of-harassment-what-to-know.html
Carta de Judith Butler pedindo desculpas pela defesa precipitada e equivocada que fez da colega:
JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ é Professor de Graduação e do PPG da UNISINOS e Pesquisador do CEBRAP.
