#ABAIXOOMIMIMI

Na foto: Érica Malunguinho, primeira Deputada Estadual eleita por São Paulo.

Ninguém gosta de mimimi. Ninguém tem tempo ou paciência para mimimi, nem à esquerda, nem à direita. #abaixoomimimi: EU APOIO! Eu não tenho filho deste tamanho, concordo com tudo. Mas a luta das pessoas negras, trans e mulheres não é por mimimi, é por justiça. Um exemplo:

Você conhece muitas pessoas transsexuais em posições de trabalho socialmente valorizadas? Você contrataria uma transsexual para trabalhar no seu escritório de advocacia? E os seus colegas? Se a resposta for negativa, isso é justo? É justo que as liberdades de uma pessoa, (1) a liberdade de escolher sua forma de manifestar a sexualidade e (2) a liberdade de escolha de uma profissão, sejam violadas em nome da sua liberdade de escolher quem você pretende contratar?

Este não seria um caso importante para relativizar a liberdade de contratar por meio de cotas para que as pessoas trans possam trabalhar, viver dignamente? Afinal, é justo deixar de contratar uma pessoa perfeitamente competente, capaz de exercer aquela atividade específica, apenas porque você não concorda com o seu modo de viver a sua sexualidade, seja por qual razão for?

Esse não é um conflito de liberdades em que o Estado deveria intervir para que todas as pessoas sejam recompensadas pelo seu esforço e competência, sem discriminações injustas? Afinal de um lado está uma pessoa que deseja trabalhar, ou seja, que precisa se alimentar e vestir e pagar por lazer etc e, de outra, uma pessoa que se sente, justamente que seja, incomodada por essa forma de vida, mas cujo incômodo não tem como resultado a perda do acesso a meios de vida e de existência dignos. Ademais, o seu incômodo pode impedir que uma outra pessoa, quem tem o mesmo valor que ela diante da lei, não consiga trabalhar e viver dignamente.

Vejam, estou falando em trabalhar e viver dignamente e não de mimimi, estou falando dos direitos mais básicos de uma pessoa, ainda mais em uma sociedade que pretende ser liberal e capitalista. Afinal, se a nossa sociedade não é capaz de premiar o esforço e o mérito das pessoas, para que ela serve afinal?

Ou a solução seria eliminar a transsexualidade, condição que não é mais considerada doença pelos especialistas no assunto? Neste caso, se a solução defendida for esta, estamos entrando no perigoso mundo do pensamento fascista: “nós”, os “bons cidadãos e cidadãs”, devemos zelar pela “moral” contra “eles”, “as/os pervertidos sexuais”, que, justamente por serem pervertidos/as, não devem ter a liberdade de realizar essa escolha, qual seja, ser uma pessoa trans. De novo, a meu ver, este é um pensamento autoritário, fascista, antiliberal e anticapitalista.

JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ é Professor da UNISINOS e Pesquisador do CEBRAP.