Jose Rodrigo Rodriguez
Nov 4 · 3 min read

O PLURALISMO COMO EMANCIPAÇÃO

Sou contrário a qualquer projeto de unidade da esquerda porque, primeiro, estamos vivendo uma época em que ser de esquerda ou de direita é mais um problema a ser debatido do que um ponto de partida útil para começar uma conversa e, segundo, as diversas formas de opressão não se resolvem umas nas outras e, por isso mesmo, não deve haver hierarquização teórica ou prática entre elas, a despeito de, pragmaticamente, em certos contextos, em nome da uma estratégia político-partidária qualquer, possa ser razoável priorizar uma pauta em detrimento das outras.

Por exemplo, eu não consigo deixar de pensar que a sensibilidade para o problema da exploração econômica está diretamente relacionado ao fato de uma pessoa conviver de maneira muito próxima com pessoas que não tem dinheiro para comer, para tratar de sua saúde e de seus dentes.

Por mais radicais e básicos esses direitos sejam, por mais ligados estejam à sobrevivência digna das pessoas, a sensibilidade para eles tende a se mostrar muito menos intensa em pessoas que nasceram ou foram criadas em ambientes economicamente protegidos e favorecidos.

Que diferença podem fazer dois reais? Ou um real?

Quem nunca sentiu esse tipo de pergunta na pele dificilmente vai entender, de fato, a gravidade da questão da exploração econômica para quem é objeto dela.

Eu não considero isso nem bom nem ruim, trata-se da vida como ela é. Uma boa parte das pessoas intelectuais e militantes de classe média e média alta, pessoas ligadas a uma série de pautas progressistas, jamais vão se colocar o problema da exploração econômica com a mesma intensidade, jamais vão disputa-lo com a mesma paixão mobilizada para outros fins.

E eu também não considero que seja papel da teoria tentar hierarquizar – novamente – as questões de classe, raça, gênero, idade entre outras, buscando uma eventual. gramática única da luta social.

Esse tipo de estratégia apenas aprofunda a divisão, pois põe em segundo plano questões que mobilizam apaixonadamente uma série de pessoas e, desta maneira, as desrespeitam profundamente.

A única estratégia de análise e de luta que me parece razoável no momento é a da inteseccionalidade, que ainda se mostra excessivamente imprecisa e abstrata, mas que projeta no horizonte uma forma de fazer política não hierárquica, não unitária e possivelmente capaz de pensar estratégias que articulem e combatam opressões diversas ao mesmo tempo.

A meu ver, a energia teórico-analítica deve ser depositada aí, na tentativa de encontrar e construir articulações entre as pessoas oprimidas, inventar novas formas de luta política, marcadas por uma solidariedade flexível; lutas nas quais as pessoas possam depositar a sua energia transformadora sem abdicar de seu direito fundamental de auto-definição, inclusive em sua condição de pessoa oprimida.

Por exemplo, as políticas de inserção na universidade, apesar de serem totalmente compatíveis com a exploração capitalista, permitem distribuir oportunidades de ascensão social de forma mais igualitária entre todas as pessoas, articulando questões de raça, gênero, idade, entre outras.

Não é à toa que tais políticas sejam tão combatidas por pessoas ainda pouco afeitas à ideia de igualdade. Não é à toa também que elas estejam sendo encampadas por boa parte dos agentes capitalistas mais avançados ao redor do mundo.

Afinal, do ponto de vista do capital, pouco importa a cor, o gênero, a origem ou a etnia de quem explora e de quem está sendo explorado.

Como articular então a questão da exploração econômica com as demais opressões? Provavelmente, essa articulação não se dará no contexto do debate de inserção na universidade. Mas como fazer isso então? Qual é o caminho?

É justamente esse tipo de questão que devemos colocar nesse momento. E sem tentar esconde-lo debaixo do tapete da hierarquização ou na tentativa de encontrar uma única gramática para as lutas.

Esse é um novo campo de reflexão, algo a se inventar, um espaço aberto para a criatividade teórica e prática, que corre o risco de permanecer oculto se voltarmos à melancólica busca de uma unidade para a prática de esquerda, problema que deve ficar relegado ao passado, ao já longínquo século XX.

JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ é Professor de Direito da UNISINOS e Pesquisador do CEBRAP