PROBLEMAS DE ORIENTAÇÃO ACADÊMICA

É muito comum receber no mestrado pessoas que já se acham geniais porque são, de fato, muito inteligentes e foram capazes de compreender uma série de problemas e textos difíceis, ainda durante a graduação.

A meu ver, o papel da orientação nesses casos é estimular essa imergência mostrando, ao mesmo tempo, que o buraco é mais embaixo, que há muito mais a ler e debater antes de que possamos chegar à conclusão de que alguém é genial. Ninguém por volta dos vinte anos está perto de ser um/a grande intelectual. Falta acúmulo, falta leitura, falta originalidade.

O problema é que, se essa tarefa for bem-sucedida, lá pelo final do mestrado e começo do doutorado, a pessoa vai começar olhar para os lados e perceber como a produção intelectual brasileira ainda é de nível relativamente baixo na maioria das áreas das humanas.

Temos poucas bolsas, temos pouco financiamento, temos pouca oportunidade de emprego e isso vai gerando um padrão muito aquém do esperado e uma disputa muito violenta, às vezes não muito republicana, pelos empregos que existem.

Resultado: qualquer pessoa inteligente começa a perceber que há pouco incentivo no Brasil para ser realmente excelente, para desafiar o senso comum da área e se lançar em projetos mais arriscados os quais sempre incomodarão os pesquisadores e pesquisadoras estabelecidas por colocar em cheque as suas ideias.

Também há pouco incentivo para desenvolver ideias próprias ou apostar em autores ou autoras nacionais: é muito melhor virar filial de um/a autor/a estrangeira, de preferência vivo/a, e passar a se beneficiar do prestígio e dos financiamentos internacionais que interessam a esse autor e a esse país. Eu costumo dizer o que, ainda, para boa parte dos pesquisadores e pesquisadoras brasileiras, basta a pessoa passar um ou dos meses fora do Brasil que o seu QI aumenta em uns 150 pontos.

Enfim, há mais incentivos para ser bom, mas “normal”, sem tomar grandes riscos, sem arriscar ser original e desafiador: é melhor gastar o tempo fazendo política para conseguir contatos nacionais e intencionais que confiram prestígio e um posto fixo para poder trabalhar tranquilamente.

Estudar muito e se esforçar para pensar de forma original não compensa muito.

A meu juízo, é por essa razão que a academia brasileira tem produzido bons e boas intelectuais, mas não tem desafiado as fronteiras do saber no campo das ciências humanas. É preciso mais investimento, é preciso mais bolsas, é preciso mais empregos para que sejamos capazes de gerar um caldo de cultura marcado pelo desafio constante à verdade estabelecida. Para que deixemos de vez de ser filial de teorias estrangeiras e possamos produzir ideias e teorias para exportação.

“Mas professor, não vivemos em um mundo globalizado? Essa ideia de importação e exportação ainda faz sentido?”

Apesar de nosso presidente querer acabar com o Ministério da Cultura e com a ciência e a tecnologia, sim ainda faz. Basta ver a quantidade de dinheiro que as universidades no mundo inteiro gastam com a globalização de suas ideias, com bolsas para alunos estrangeiros e com a manutenção de suas redes globais de ex-alunos e pesquisadores.

Estabelecer qual é o senso comum das pessoas informadas e em postos de poder no mundo todo ainda é um meio importante de determinar o que é pensável e o que não é pensável, ou seja, o que poderá e que não poderá ser feito no mundo real.

Do jeito que está hoje, o nosso meio intelectual nas humanas favorece as pessoas capazes de pensar instrumentalmente na sua carreira e desfavorece as pessoas mais estudiosas com pretensões de originalidade.

JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ é professor de graduação, mestrado e doutorado da UNISINOS.