Existem crenças que não sejam limitantes?

De alguns anos para cá, muito tem se falado sobre este assunto. O combate às “crenças limitantes” passou a ser uma constante no discurso de gurus e na vida dos que investem no autoconhecimento. Não é pra menos, já que em geral, a partir do momento em que formamos um julgamento a respeito de determinado assunto, paramos imediatamente questionar e deixamos de pensar sobre o tema. Criamos um atalho mental para “ganhar tempo” e ao sermos submetidos a uma situação em que aquele mesmo assunto ou situação se apresenta… bingo! Acessamos o arquivo de rótulos e respostas prontas e fim de papo, ou melhor, fim de reflexão, fim da possibilidade de novos aprendizados e correlacionados.

Mas existe alguma crença que não seja limitante?

Acredito que não, pois em última instância, optar é excluir e se acredito em algo, tenho de descartar as outras opções. Por outro lado, será que devemos evitar todas as crenças? Também acho que não, já que o “limitantes”, aqui aplicado com conotação pejorativa, também tem seu valor. Limites, podem ser necessários e cumprem uma importante função estruturante, pois indicam o que pode e o que não pode ser feito. Eles orientam nossa conduta.

E quanto as “crenças” ? Bom, quaisquer que sejam, independente de credo ou partido, elas nos dão sentido e impulsionam as atitudes que serão responsáveis por tudo de bom e também tudo de mal que colheremos como resultado e, por consequência, por tudo que a humanidade alcançou ao longo de sua história. Aparentemente estamos diante de um paradoxo. Se por um lado as crenças podem limitar nossa expansão pessoal e intelectual, por outro, o que seria de nós sem elas?

Contudo, existem determinadas crenças que nos são impostas socialmente desde a mais tenra idade, que precisam ser revisitadas em mais de um momento. Ao longo de uma vida, toda pessoa vai adquirindo percepções através de experiências que podem se traduzir em uma sabedoria que certamente irá alterar algumas crenças que foram implantadas sem a devida reflexão e observação empírica. A adolescência é claramente um momento onde o questionamento interior aflora, mas não é o único. Revisitar crenças é uma tarefa sempre muito dolorida e exige comprometimento e uma grande dose de coragem e paciência, pois durante um bom tempo a pessoa terá de conviver com o conflito interno entre o novo/incerto e o velho/confortável.

Interessante é que depois da tormenta mental (crise), vem um período de novas crenças, acompanhado de uma produção intelectual/artística/cultural intensa (ninguém trabalha melhor do que quem está em sintonia e alinhado com suas crenças), mas novamente é preciso manter a curiosidade e a mente aberta, pois muito provavelmente estas crenças também precisarão ser revisitadas futuramente.

Impermanência acelerada

Em um mundo cada vez mais volátil, onde além de constantes, as mudanças estão aceleradas, às crenças representam um grande perigo, pois em muitas situações os fundamentos que se apresentavam poucos meses atrás já não fazem mais sentido, mas nossas atitudes seguem o mesmo caminho de antes, no piloto automático. No mundo corporativo isso é muito claro, bastando ver o exemplo da Kodak que ficou presa ao passado e mais recentemente o que está acontecendo com os taxistas x Uber.

Crer desconfiando ou melhor, crer sem apego, pode ser o caminho do meio para lidar com este paradoxo. O apego está relacionado com a posse, com o ego e se evidencia quando uma pessoa se confunde com as próprias crenças. Isso acontece com muita frequência em nosso dia a dia real ou virtual (ainda pior) e se apresenta sempre que o diálogo dá lugar à discussão. Diante de alguma colocação contrária às suas próprias crenças, as pessoas se sentem ofendidas e revidam com mais ofensas.

Diante deste entendimento, dois pontos merecem destaque: tentar não perder a curiosidade e a capacidade de questionar sempre (Toca Raul e sua “Metamorfose Ambulante”) e respeitar em absoluto a crença do outro, pois não é preciso desconstruir a crença alheia para se afirmar uma própria que pode, e até deve, ser temporária.