Como fiquei sem celular por semanas

E a experiência de retomar hábitos esquecidos

Feche os olhos e imagine o seguinte… Quer dizer, não feche os dois senão fica impossível continuar essa leitura. Feche um olho apenas e mentalize o cenário: O ano é 1998. Você está de férias. Numa tarde do mais pleno ócio, resolve sair do sofá e marcar com um(a) amigo(a) de ir ao cinema. Lembra o que era preciso fazer?

Para orquestrar tal plano, basicamente duas coisas eram necessárias: 10 reais — quantia suficiente para comprar o ingresso do cinema, pipoca, refrigerante, uma barra de chocolate, a passagem de volta do ônibus e retornar para casa ainda com troco — e combinar horas antes com a pessoa.

Estamos falando de uma época que o celular não era um aparato tão acessível. Dependendo do compromisso, para marcá-lo era preciso uma organização previa da logística daquele encontro.

– Sete e meia em frente ao cinema?
– Sete e meia em frente ao cinema!
– Não se atrase, eim? Se demorar muito, vou esperar na livraria…
– Tá certo, até mais tarde!

E era isso. Se mais pessoas fossem ser convidadas, alguém tinha que incorporar o espírito de atendente de telemarketing e ligar do telefone fixo pra casa de cada um — e só assim finalmente combinar a saída com todos.

Atualmente, o celular e a comunicação instantânea permitem que atrasos sejam avisados de última hora e mensagens de texto abram margem para se dizer que já está chegando (ou mentir descaradamente dizendo que está) ou mesmo avisar que nem mais irá ao compromisso. Anos atrás, porém, a conduta era diferente. Pontualidade e confiança na palavra do outro eram exercícios tradicionalmente cultivados.

Imaginaria hoje voltar aos costumes “antigos”?

Estou sem celular há algumas semanas e por isso tive que retomar hábitos que não praticava faz algum tempo.

Mas, antes, me permita compartilhar como tive dois celulares e acabei ficando sem nenhum.

A queda: As últimas horas do xing-ling

Há pouco mais de 1 ano, resolvi importar pela internet um celular asiático. Na época havia juntado grana por uns meses e estava precisando de um aparelho novo. Depois de pesquisar, decidi adquirir um que, apesar de marca desconhecida em terras tupiniquins, era bem avaliado em reviews internet afora. Aliás, “xing-ling” é um termo pejorativo, mas chamemo-lo assim apenas pra facilitar.

Comprar um produto que vem do outro lado do mundo e que você não sabe nem se vai chegar inteiro era uma empreitada arriscada. Entretanto, caso desse tudo certo, seria um bom investimento.

Depois de tomar a temerosa decisão, comprei o celular e esperei uns meses para que chegasse ao Brasil. Assim que chegou, fui retirá-lo nos correios e descobri ter sido agraciado com a taxa alfandegária que tradicionalmente aflige grande parte dos compradores de muambas trazidas de fora. Como sabia do risco, bola pra frente.

Em posse do aparelhinho chinês, notei que realmente era bom e funcionava perfeitamente. Estava satisfeito. Perdi a conta de quantos aplicativos inúteis instalei e de quantas fotos e selfies aleatórias foram batidas. E assim foi por uns alguns meses. Só que essa lua de mel tecnológica não durou muito.

Veja você. Nunca tinha deixado esse pedaço de maravilha chinesa cair — o que não quis dizer nada, pois bastou que acontecesse apenas UMA vez.

Num fatídico dia, o aparelho caiu. Caiu não. Digamos que em um acidente foi direto ao chão com impacto similar ao do meteoro que provocou a hecatombe que extinguiu os dinossauros. Nada fácil de ver. Ao presenciar a cena — registrada em câmera lenta pelos meus olhos — fiz mentalmente uma prece silenciosa. A expectativa era que apenas uma ou duas rachaduras tivessem sido adquiridas naquela amarga colisão. Lembro que, esperançoso, catei o celular do chão, virei-o de frente a mim e olhei a tela: agora um mosaico de vidro esfarelado. Utilizá-lo era inconcebível até mesmo para o mais hábil engenheiro da NASA.

Esse dia foi foda

Por ser um eletrônico importado e sem peças em território nacional, minha única alternativa era retornar ao site gringo que o comprei e adquirir uma nova dívida arrematando um display para substituição. E assim o fiz. Restava agora esperar chegar.

Durante esse período, para não ficar totalmente desprovido de comunicação móvel, minha mãe me emprestou um smartphone antigo que ela tinha. Passei a utilizá-lo e por umas poucas semanas quebrou um bom galho. E, realmente, quebrou.

Em pouco tempo, o aparelhinho que outrora foi de minha progenitora, numa bela noite abruptamente pifou. Sem cerimônias ou despedida, a tela apagou e não acendeu mais. Acredito que seu último suspiro se deu logo após eu curtir no Instagram algum vídeo de labradores andando de skate; ou dar like num retrato de algum amigo que mesmo não saindo tão bem na foto, curti pela brodagem.

Voltando ao assunto.

Minha situação agora era a de alguém que possuía dois aparelhos telefônicos, ambos sem funcionar. Ou seja, estava oficialmente sem celular.

Temporariamente #offline

Por não ser desses que checa a todo momento as redes sociais, não fiquei tão aflito. Tem gente que, por exemplo, religiosamente cata o celular, abre o Facebook/Instagram/Snapchat, vê a timeline, fecha o aplicativo e literalmente segundos depois o abre novamente. Confesse aí, você já fez isso.

Esse não era meu caso. Minha preocupação era outra: estar fora de casa, precisar ser encontrado e não ter como receber e fazer ligações; ou necessitar de alguma informação e não poder obtê-la na hora que eu precisasse — já que não possuía mais acesso fácil à internet de bolso.

Hoje em dia estamos mal acostumamos com a praticidade de contatar e sermos contatados a qualquer momento e com a facilidade de obter informação instantânea. É curioso perceber quão invariavelmente ficamos dependentes desses novos costumes sociais criados pelo uso da tecnologia.

Esses dias, porém, tive momentos que voltei a praticar ações que simplesmente estava desacostumado.

Foco e concentração turbinados

Em casa, o reflexo de não ter mais o som das notificações pipocando esporadicamente de hora em hora foi rapidamente apreciado. Notei que conseguia me concentrar muito mais. Ler, estudar ou mesmo ver um filme sem interrupções constantes possibilitavam não perder detalhes importantes do que consumia. Vez ou outra até ouvia um apito fantasma das notificações de aplicativos, mas nada que me tirasse o foco.

Por falar em aplicativos, não fiquei tanto tempo assim em isolamento virtual. Após uns dias, consegui instalar o WhatsApp em um tablet antigo por meio de uma gambiarra MacGyverística que não cabe aqui detalhar, pois esse texto já está ficando grande o suficiente. Usar um tablet não era tão prático, mas pra ficar um pouco menos incomunicável, tava valendo. Felizmente me forcei a manter o hábito de desativar o som das notificações e checá-las apenas vez ou outra.

Fora de casa, porém, a situação exigia alguns outros protocolos comportamentais.

Perguntar quando não sabia uma resposta

Bom, apesar de não estar mais tão incomunicável, eu tinha que tentar consertar os celulares defeituosos. Depois de 2 meses de espera, a tela LCD nova do xing-ling chegou. Um amigo me indicou uma loja de manutenção no centro da cidade e sem delongas fui lá tentar ressuscitar os aparelhos. Porém, ao chegar ao calçadão do centro, eu te pergunto, onde ficava mesmo a loja? Eu havia esquecido.

Sem poder fazer uma rápida ligação para meu amigo, precisei pedir informação a quem coabitava ali comigo. Nesse caso, aposentados sentados em bancos de madeira que jogavam conversa fora com engraxates, camelôs, vendedores de salgadinhos de procedência duvidosa, etc. Sai perguntando. Notei como fazia tempo que não tinha dependência em pedir informação aos outros. Depois de algumas perguntas, obtive a resposta com um ambulante trajado de anúncio “Compro Ouro, Pago Bem!” e que inicialmente até pensou que eu queria vender os celulares a ele. Coisa que eu devia ter feito e você já vai saber o porquê. Enfim, segui as instruções do rapaz e encontrei a loja.

Chegando lá soube, veja só, que os dois celulares estavam seriamente avariados. O xing-ling, além da tela, teve uma peça interna danificada na queda. O de segunda mão teve um problema na placa mãe. O técnico, sem titubear ou me preparar psicologicamente, mandou um “Rapá, né por nada não mas agora você tem dois pesos de papel”. Em suma: consertá-los era totalmente inviável. E, simples assim, descobri que os aparelhos já eram. Ainda tentei vender as sucatas à loja, mas nada feito. Continuei sem celular.

Marcar horário e socializar

Dias após o episódio acima, fui ao apartamento de uma amiga. Como exemplificado no início do texto, precisei combinar com antecedência o horário que chegaria lá. Pra evitar uma gafe, cheguei com pontualidade britânica. O que não importou em absolutamente porra nenhuma. Minha amiga não estava em casa, se atrasou ao retornar e não conseguiu me avisar. Tive que aguardar na portaria.

Acabei puxando papo com o porteiro.

“Jogo do Brasil, né?”, comentei. “Seleção tá ruim demais nesse futebol!”, respondeu consternado. Perguntei o placar. Zero a zero. “Mas tem que torcer”, digo enquanto o senhorzinho tenta ajeitar o sinal de sua mini TV. Acompanhávamos o jogo quando após um tempo ele comenta: “Hoje meu neto completa 1 ano”. Parecia que estava esperando alguém pra dividir aquela notícia.

Perguntei se havia comprado presente. Ele disse que ainda não. Que o filho morava com a família em outro estado e só poderia vê-los no final do ano. Que estava juntando dinheiro para viajar. “Você vai ter que levar dois presentes então, o de aniversário e o de Natal”, mencionei. O porteiro abriu um sorriso e acenou com a cabeça concordando. Falou que sempre morou aqui e que o filho se mudou pra tentar a sorte. O fato é que em poucos minutos eu sabia de particularidades da vida daquele senhor que, naquela hora, já não era mais um completo estranho. Antes que pudéssemos continuar a conversa, minha amiga chegou. Me despedi dele com um cordial aperto de mão e um “Até outro dia!”.

Se ali eu estivesse com foco unicamente num celular, possivelmente não teria tido essa conversa. Digo, por vezes viver de olhos numa tela de 4 polegadas ou ficar plugado com fones ouvindo numa trilha sonora isolada, pode nos privar de momentos singulares.

No fim, acabei percebendo que às vezes responder a várias mensagens, conferir likes ou estar conectado com vários perfis diferentes não significa muito quando não há conexão com quem está logo ao lado.

A tecnologia traz muitos benefícios, facilita nossa vida e até permite que utilizemos joguinhos de realidade virtual para socialização. Entretanto, deve-se ter cuidado em dosar o tempo para se dedicar e depender dela.

Por fim, agora me vejo entrando em outra jornada: a de adquirir algum aparelho resistente, de toque polifônico, preferencialmente não roubado e vendido por um valor que não afete tanto o bolso dessa vez.


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