Nem todo santuário tem imagem em alta definição

Velha infância: o dia do gordinho da locadora

Da série coisas que fiz e vou pro inferno

12 de Outubro. Dia de Nossa Senhora Aparecida, dia das crianças, aniversário do Sérgio Mallandro (sério, pode conferir) e data que escolhi compartilhar uma história que aprontei justamente nos tempos de infância.

Hoje iremos contar sobre o dia que ajudei a um estabelecimento ir à falência precoce e em contrapartida traumatizei uma criança.

Antes, porém, vamos contextualizar a época.

Há uns bons anos, ter um simples videogame em casa era uma realidade possível para poucos. Mais precisamente para indivíduos portadores de uma boa grana ou de pais mais abastados financeiramente. Esse sempre foi um brinquedo caro, aliás. Por isso, numa tentativa suprir a abstinência da jogatina, milhares de pequenos jovens se juntavam em hordas sedentas por adrenalina e iam jogar videogame por 50 centavos a hora. Era o tempo das locadoras caseiras.

Locadoras caseiras consistiam em locais, casas mesmo, em que donos de um número razoável de consoles (uns quatro) montavam suas máquinas eletrônicas na varanda, pegavam as caixas de sapato que continham os cartuchos dos jogos e abriam os portões dos seus estabelecimentos numa determinada hora do dia — que toda molecada já sabia — e, desse modo, vendiam entretenimento virtual em troca de parte da mesada juvenil.

Nessa época, devia ter uns 8 anos, e já até havia ganho meu primeiro videogame. Entretanto, nas férias do colégio, mal podia brincar com ele. Meus pais faziam o favor de me levar até a casa da minha avó durante o horário que trabalhavam, preocupados com a hipótese de eu ficar sozinho em nossa casa e fazer alguma merda, já que não haveria ninguém para me vigiar.

Para não ter que desmontar e levar meu Super Nintendo todas as manhãs à casa da minha avó e remontá-lo, eu recebia uma graninha diária para gastar em locadoras nas adjacências do bairro.

Certo dia, depois de tomar meu Toddynho matinal, minha estimada avó me deu uma dica valiosíssima naquele tempo: um senhor, o Seu Tobias, que fazia artesanato em barro e argila e era dono de um pequeno mercadinho que vendia itens diversos, mas só de barro e argila, havia comprado uns videogames e os montado nos fundos da lojinha. E o melhor, era o primeiro dia de funcionamento desse novo negócio dele.

Empolgado com a novidade, no mesmo dia fui com meu irmão conferir a bagaça.

Chegando lá encontro uma loja lotada de prateleiras alinhadas frente a frente, preenchidas com diversos itens de arte. Aposto que ali tinha de simples vasos a esculturas de estilo barroco & rococó. Notei que os videogames, todos Super Nintendo, ficavam nos fundos, atrás da última prateleira da loja. E não tinha NINGUÉM jogando. Tudo lá, disponível para o nosso imberbe deleite.

Antes mesmo do Seu Tobias terminar de modelar uma peça que me parecia um Transformer deformado, eu e meu irmão já estávamos cada um estreando um console e jogando delirantemente. Nisso, chega na loja um gordinho. E vou chamá-lo assim, pois eu era gordinho também, então não me venha com politicamente correto. Pois bem. Eu conhecia toda a molecada da vizinhança, mas esse nunca tinha visto antes. Logo de cara percebi que era todo engomadinho — havia pago 2 reais adiantados de jogatina.

Não tinha ido com a cara do moleque e pelo visto ele também não tinha ido com a minha. Enquanto eu jogava Donkey Kong Country 2, ouvi a seguinte frase provindo da boca cheia de jujubas do garoto:

– Tio, eu quero jogar aquele jogo ali!

Olhei para trás e vi que o gordinho apontava para a minha tela. Não acreditei. O fi duma égua queria que o dono da loja pedisse para eu parar de jogar e cedesse a ele a fita do joguinho dos macacos. Demorou um bom tempo para o gordinho parar de encher o saco e o Seu Tobias convencê-lo a se divertir com outro jogo. Se na época eu já tivesse consciência do que era e pra que servia um soco inglês cravejado de pregos com tétano, provavelmente pediria um desses no mesmo dia à minha mãe e mostraria a esse gordinho no dia seguinte.

Daí então a cena era: no videogame à minha esquerda estava o meu irmão, eu no centro e o gordinho à minha direita. Lembro exatamente. Ele jogava Top Gear quando percebi que, nos momentos de exaltação, o garoto rechonchudo empinava a cadeira de plástico que estava sentado para frente e para trás, como se fosse uma cadeira de balanço. Notei que o pequeno ser adiposo ia para trás de um modo tal que faltavam milímetros para que perdesse o equilíbrio e se estapelasse no chão. Não sou de desejar mal a ninguém. Naquele dia, porém, minha mente corrompida pelo ódio ao garoto me fez ter uma endiabrada ideia: empolgar o gordinho, a ponto de ele se mexer tanto na cadeira que seria impossível não levar um belo tombo.

O que é levar um tombo quando você já é adulto? Nada, é algo que acontece. Mas naqueles dias juvenis? Quando criança, cair no chão de uma maneira vergonhosa significava receber dedos apontando em sua fuça ao mesmo tempo que frases como “HAHAHAHAHA, QUE ANTA!” eram proferidas sem um pingo de remorso. Dependendo da tirada de sarro, era um constrangimento que deixava um guri a ponto de chorar. E com certeza se ele levasse um tombo, tirar uma com sua cara era o que eu e meu irmão faríamos sem a menor dúvida. Vamos combinar, crianças sabem ser cruéis quando querem.

Eis que, quando o moleque estava alucinado enquanto ultrapassava os carros do game, vi que empinava sua cadeira cada vez mais e nessa hora resolvi colocar meu plano em prática. Soltei um:

– Carambola (ainda não havia palavrões em meu vocabulário), ultrapassou quase todos! Você é realmente muito bom, mô fi! Vai ganhar fácil a corrida!

Ao perceber que seu rival de console, no caso eu, havia acabado de lhe conceder um elogio, o gordinho automaticamente pareceu estar possuído por alguma entidade cosmo estelar especialista em montar touros mecânicos e começou a demonstrar cada vez mais empolgação.

Não é o garoto da história, mas a face de entusiasmo era a mesma

Enquanto jogava, empinava a cadeira para frente e para trás cada vez mais — e eu mentalmente dizia “Cêvaicair, cêvaicair, cêvaicair”. Da minha parte, a ansiedade era inevitável. Da parte do moleque, a alegria era máxima. Tentei achar na internet algum registro similar de empolgação e, veja só, encontrei esse bizarro do Hitler estranhamente agitado nas Olimpíadas de 1936. E era mais ou menos assim a oscilação frenética daquele pequeno garoto acima do peso.

E não é que num instante, o moleque deu a balançada absurda pra trás e… não caiu?

APENAS fez a cadeira topar na prateleira que estava atrás de nós. Um leve toque, com pressão do pousar de uma borboleta, entretanto com uma devida força newtoniana aplicada que fez com que uma prateleira batesse noutra — e assim iniciou-se um efeito dominó em larga escala. O resultado foi que as prateleiras derrubaram umas às outras, fazendo com que pedaços de argila e barro sólido voassem pelos ares ao mesmo tempo que um barulho colossal e indefinido era produzido.

Com a barulheira, grande parte dos moradores das casas vizinhas vieram correndo curiosos ver que diabos estava acontecendo — talvez indagando, pelo barulho, quem estaria soltando bombas de São João fora de época dentro de uma casa comercial.

Seu Tobias veio a passos largos do outro lado da loja, tal qual um corredor senegalês profissional de 100 metros rasos, assustado sem saber o que havia acontecido. O gordinho, segundos após ver a cagada que fizera, catatonicamente confessou que tinha derrubado tudo. Eu vi a transição da face daquele moleque da mais pura alegria ao terror repentino. Acredito que nunca uma vitória no Top Gear foi tão amarga.

O desfecho foi que em menos de 24 horas o Seu Tobias desistiu do ramo videogamístico, o gordinho disse que nunca mais ia jogar e eu fiquei um pouco chateado por saber que possivelmente aquele garoto ia apanhar com cabo de vassoura todos os dias até chegar à puberdade.

Mas pra você ver como criança às vezes é terrível: eu disse um pouco chateado.


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