O desempenho do Brasil na Copa de 2018 e as expectativas para o novo ciclo

József Bozsik
Jul 16, 2018 · 7 min read

Já falei outras vezes que não considerei esta Copa uma de grandes seleções. A França foi a melhor e a mais sólida. Logo depois, coloco Brasil e Bélgica como as melhores, mesmo com os seus acertos e defeitos peculiares.

O Brasil tinha um sistema defensivo muito bem treinado, uma defesa por zona, mas uma zona “pressionante”, gerando pressão o tempo todo no portador da bola, com exceção do primeiro jogo contra a Suíça, onde teve uma das piores marcas da Copa neste sentido. Se a ideia do sistema era boa, ele nem sempre era executado em sua perfeição por causa da especificidade de alguns jogadores. Coutinho e Paulinho não voltavam com velocidade, nem pressionavam o portador da bola de maneira adequada, ou seja, indo nos momentos certos e sempre cortando a linha de passe. Do mesmo modo, deixavam muitos espaços nas suas costas, sobrecarregando Casemiro.

Esta debilidade nas costas de Paulinho e Coutinho, deixou a nossa entrada da área desprotegida. Várias vezes nossos adversários chegaram para concluir de frente para o gol, e fomos salvos por versões extraordinárias de Thiago Silva, Miranda e Casemiro bloqueando chutes ou atrapalhando de maneira decisiva. Quando enfrentamos um adversário mais qualificado ofensivamente, passamos alguns riscos desnecessários. Certamente ao ver este espaço, Roberto Martinez optou por ter Kevin De Bruyne como “falso 9".

O primeiro gol da Bélgica foi o imponderável. Desvio milimétrico de Kompany no primeiro pau, a bola bate no ombro de Fernandinho e vai direto para o gol. O segundo gol, três problemas que poderiam ter evitado o gol. Uma falta estratégica em Lukaku, Coutinho tendo acompanhado De Bruyne até o final da jogada, ou Marcelo se posicionado melhor para tampar a diagonal do chute do belga.

Aqui, em especial, sentimos a falta de mais intuição e técnica defensiva no XI titular. Marcelo, Coutinho, Neymar e Paulinho estiveram aquém sem a bola. Em muitos momentos, Willian estava ajudando mais numa transição ao proteger rapidamente Fagner do que Paulinho, Coutinho e Neymar. O Brasil melhorou no 4–4–2 contra o México porque obrigou Paulinho a jogar mais recuado, fechando os espaços por dentro com Casemiro, tirou o seu pior defensor (Coutinho) do miolo do meio-campo, lugar de disputas físicas, de segunda bola, de estruturação da equipe entre estar e não estar com a bola, para o lado do campo. Com Neymar e Jesus dando o primeiro combate por dentro, a seleção melhorou defensivamente, teve mais a bola, sofreu menos em transições, e criou mais.

O ideal, para mim, seria ter Coutinho, Neymar e um 9 no ataque, e um meio-campo mais sólido e estruturado. Fomos do segundo homem de meio-campo nas eliminatórias (Renato Augusto) para a figura de um meia-atacante (Coutinho) que começa um pouco mais recuado. Em termos de solidez, isto pode ter sido fatal. Um jogador defensivamente mais consciente no miolo do meio ou mesmo Filipe Luis no lugar de Marcelo, e o segundo gol belga teria sido evitado.

Com a bola, passamos boas sensações e criamos muito. É preciso ponderar que juntamos muitos talentos. Neymar, Marcelo, Coutinho, Gabriel, Firmino, Douglas Costa, Willian, as infiltrações de Paulinho. Eram muitas ferramentas, que por si só davam as suas respostas.

A entrada de Coutinho no lugar de Renato Augusto mudou todo o sistema ofensivo. Jogávamos de maneira muito mais funcional, sem amplitude total. Com Coutinho por dentro, Willian ficava quase sempre aberto e o lateral-direito se tornava um interior mais recuado, junto com Casemiro e os dois zagueiros. Isto dificultou muito para Willian, que sempre recebia a bola no pé e só tinha como opção ir a linha de fundo e bater forte cruzado no segundo pau. Do lado esquerdo, o lateral atacava o corredor, Neymar flutuava e Coutinho invadia a área. Algumas vezes, Marcelo, Coutinho e Neymar fizeram triangulações brilhantes; outras vezes, um invadiu o espaço do outro e a equipe perdia fluidez. Algumas vezes, Neymar ficava encaixotado entre Marcelo passando no seu corredor e Coutinho invadindo o espaço nas costas dos volantes.

Outro fator foi Gabriel Jesus. Com atacantes mais abertos e profundos, com um ataque mais posicional e de amplitude total, se exige mais do trabalho do 9 no espaço entrelinhas. Em especial, Filipe Luis foi mestre em buscar uma saída vertical acionando o jogo de “costas para o gol” de Gabriel, e este não correspondeu. Gabriel Jesus não conseguia dar continuidade as jogadas, seja por afobação ou por problemas de finura técnica ou físicas para lidar com zagueiros mais fortes. Exigindo-se muito mais do seu jogo de costas, ficou ainda mais exposto. Para esta função, dentro do novo sistema, Firmino encaixava melhor e os seus minutos em campo provaram isto. Mais forte, mais técnico, mais fino nos movimentos, Firmino dava continuidade para Coutinho e Neymar invadirem como “terceiro homem” num ataque mais direto depois da verticalização na saída de bola. Isto se notou contra o México e a Suíça, mas principalmente contra a Bélgica.

O Brasil produziu bastante ofensivamente, mas deveu nas finalizações. Seja porque teve problemas em Gabriel e num Neymar vindo de cirurgia no seu pé direito, seja porque Willian e Douglas nunca foram goleadores natos, ou mesmo porque Paulinho, Coutinho e Renato perderam gols cruciais pegando a bola livre na entrada da área.

O Brasil foi a segunda equipe que mais chutou ao gol por jogo, a primeira em chutes no alvo (8 por partida), e apenas a sexta em número de gols. Foi a segunda seleção com mais passes para finalização, o que mostra trabalho bem feito em treinos para construir jogadas. O Brasil foi também a seleção que mais finalizou da pequena área do goleiro (2.6 por jogo), enquanto a segunda (Inglaterra) teve quase uma finalização a menos por jogo (1.7). Uma diferença brutal para as outras seleções da Copa.

Faltou alguma solidez e equilíbrio no todo da equipe para não sofrer alguns riscos defensivos, e ganhar mais duelos físicos, mas faltou, acima de tudo, precisão nas finalizações. O Brasil foi a equipe que mais criou nessa Copa, e certamente a que mais perdeu gols também. No top 5 de goleiros com mais defesas na Copa num jogo, três foram contra o Brasil: Courtois, Navas e Ochoa. Tivemos cinco vezes mais expectativas de gol do que a Bélgica pelas estatísticas, fomos a seleção com mais expectativa de gol na Copa e com alguma vantagem sobre a segunda.

Em especial, uma taxa nos entrega. Dos nossos 40 chutes no alvo, apenas 8 foram gol. Uma taxa de 20%. A 25ª seleção nesse ranking de aproveitamento entre chutes no alvo e gols. O Brasil precisava de 5 chutes no alvo para fazer um gol. A Bélgica precisava de 5 chutes no alvo para fazer 2 gols. A França precisava de quase 2 chutes no alvo para fazer um gol. Pecamos e muito nas finalizações. Seja por afobação, erro de gesto técnico, detalhes do futebol. Como quiser.

Em síntese, o nosso desempenho na Copa foi bom. Poderíamos tê-la vencido mesmo com os problemas apontados, mas havia margem para melhorar e, principalmente, para ter uma equipe mais sólida em todas as fases do jogo. É para isto que precisamos olhar: ter um time equilibrado e que não precise elaborar muitas chances para suas estrelas matarem o jogo com eficiência. Não precisamos criar tanto se conseguirmos chances mais evidentes e com pouco peso mental na finalização, pois mais segurança em todas as fases.

Copa do Mundo se ganha com equilíbrio e o meio-campo é fundamental para tal, como sabemos bem com Dunga, Mauro, Mazinho e Zinho em 94, ou com Edmilson (se adiantava com a bola), Gilberto Silva, Kleberson e Rivaldo em 2002. Coutinho precisa ser o quarto homem aqui e não o terceiro. Isto irá nos dar mais equilíbrio no tripé de meio, mais sustentação, irá limitar bastante os riscos defensivos que corremos nessa Copa e dar mais liberdade criativa para os três do ataque, embora talvez falte algumas coisas de mecanismos ofensivos e fluidez que sobraram nessa Copa.

Olhando para o futuro, as nossas chances em 2022 passam muito por dois nomes: Arthur e Lucas Paquetá. Se estes dois se tornarem jogadores da elite do futebol mundial, seremos favoritos destacados no Catar, e nossas chances sobem muitíssimo. Um meio-campo com Casemiro, Arthur e Paquetá é completo. Desarme, interceptação, duelo físico, retenção de bola, giro, infiltração, passe vertical, chegada ao toque, último toque, gol. Tudo que precisamos há em características nestes três jogadores. Um primeiro, um segundo e um terceiro homem típico de meio.

Neymar estará com 30 anos, ainda no auge, mais maduro, desenvolvendo ainda melhor sua faceta de passe e criatividade, sem perder gol e drible, embora perca algo de potência pela idade. Gabriel Jesus e Firmino estarão mais experimentados para serem mais hierárquicos na área, e ainda temos muitos jovens promissores para o ataque: Malcom, Neres, Rodrygo, Paulinho, Vinícius Júnior, Pedro, Lincoln.

A defesa preocupa um pouco, já que perderemos os fantásticos Miranda e Thiago Silva (um dos melhores zagueiros da história do futebol brasileiro, de uma técnica defensiva exuberante). Nossas esperanças se encontram em Marquinhos, Rodrigo Caio, Veríssimo, Marlon, Jemerson, Felipe, Vitão, Thuler, Lyanco, Bremer, entre outros. Há muitos nomes e o sistema de Tite com um meio-campo mais equilibrado protege bastante o zagueiro. No gol, teremos Alisson e Ederson ainda melhores. Nas laterais, o Brasil sempre produz jogadores. Na esquerda, temos Alex Sandro, Wendell, Jorge, Arana, Telles. Talvez, em 2022, Marcelo tenha passado para o meio ou decaído fisicamente. Esperemos. Na direita, há menos prospectos, mas esperanças em Militão, Dodô e num Danilo mais maduro nas decisões.

Há um caminho promissor pela frente, mas que só será bem aproveitado com a manutenção da comissão técnica, com Tite à frente de tudo isto. É preciso que o técnico brasileiro aprenda com os seus erros na primeira Copa e saiba dar a condução adequada para esta transição, mantendo uma base, mas também fazendo mais testes e sendo mais rápido e assertivo nas mudanças. Copa exige solidez e busca pelo erro mínimo, pela diminuição do acaso, mesmo sabendo que ele estará sempre lá e, no fim, será definitivo como sempre.

József Bozsik

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A arte do futebol é ter controle sobre o seu tempo.

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