A Marcha

Julia Greinert
Aug 9, 2017 · 2 min read

Quando ela percebeu, estava no meio de uma multidão. Nunca tinha visto tanta gente junta em toda a sua vida. Porém, quando ela pensava em multidão, também pensava em desordem, e o que via era o oposto disso. Incontáveis pessoas alinhadas em incontáveis filas até onde o seu olhar podia alcançar. Sentia como se, se fosse capaz de olhar a cena do alto, veria vários pontinhos equidistantes, se movendo em perfeita sincronia para frente.

Se movendo?

Sim, ela estava andando junto com a multidão, mas não sabia como. Ela tinha acabado de acordar, como poderia estar andando no meio de tanta gente? Ou melhor, não havia acabado de dormir? Ela estava confusa. Todos estavam. Mas ninguém percebia. Ela não percebia. Olhava para as pessoas mais próximas, e todas continuavam a olhar pra frente, com um semblante decisivo, mas ao mesmo tempo vazio. Por que ninguém falava? Por que ninguém a via? Por que ninguém vacilava? Coitada dela, tão confusa. Apesar disso, não parou de andar. Ninguém parava.

Cada vez mais assustada, ela olhou para baixo, e percebeu que, por algum motivo, usava um vestido longo, escuro, pesado. Mas o mais estranho não era o fato de não ter ideia de como foi parar dentro dessa roupa, mas sim suas mangas: do mesmo tecido pesado que era feito o resto do traje, eram tão longas que ela não conseguia ver suas mãos, e suspeitava que as mangas eram mais longas que o próprio comprimento do vestido. É difícil decidir o que a deixou mais assustada, se foi o fato de ela não conseguir ver as suas mãos, ou foi quando percebeu que não conseguia mexê-las. Nem os braços. Nem os ombros. E, por mais que estivesse andando, não conseguia mover suas pernas. Pelo menos não por conta própria.

Ela sentiu o pânico subindo pelo seu peito, passando pela garganta e finalmente atingindo seu rosto. Será que conseguia gritar? E gritou. Berrou. Chorou. Para ela, pareceu uma eternidade. Será que tinha sido mesmo uma eternidade, ou só alguns anos? Ela nunca saberia. Mas tinha certeza de uma coisa: ninguém conseguia a ouvir. Será?

Para mim, o som era agradável, como o som dos pássaros ou de alguma música de sua banda favorita um dia soou para ela. Eu podia ouvir o som saindo de sua frágil garganta. E eu realmente podia. Mas o infinito só não é entediante quando se pode mudar. Então resolvi acabar com a sua dor.

Quando me viu, parou de gritar. Soube exatamente o que estava fazendo naquele lugar. Sorriu, e me abraçou.

Terna.

Eterna.

Terminal.

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