Latejar Constante

Eu estava numa festa. Eu não queria estar nessa festa. Eu nunca quero estar em festas, mas dessa vez cedi aos esforços de todos. Na verdade, achei que valeria mais à pena ir à maldita festa e ter algumas horas de desconforto fora da minha casa, do que ter que aguentar por alguns dias todos falando dela e de tudo que eu supostamente perdi por ter preferido ficar em casa. Afinal, já estavam falando desse evento há algumas semanas. Por algum motivo que desconheço, ele parece ser mais importante, ou talvez mais interessante do que o comum.

Então, voltando à festa. Eu estava lá, num canto — sempre me sinto muito mais confortável perto de paredes e cantos neste tipo de situação — quando alguém derruba um copo de vidro em mim. Quando começo a sentir o meu rosto esquentando tão rápido quanto a minha raiva chegando, e também o arrependimento de estar naquele lugar, a vejo. Uma menina linda, querida com todos, inclusive, é sempre muito legal comigo, e já fazia algum tempo que eu sentia atração por ela. Nunca entenderei como tamanha doçura cabe numa criaturinha daquelas. Não que ela seja pequena, pelo contrário, está bem acima da média da altura das garotas em geral, mas ela é… delicada, e passa essa sensação de fragilidade, que faz você querer guardar em um potinho. Mas estou perdendo o foco. De novo.

Ela se desculpou milhões de vezes, e eu disse que não precisava se preocupar, apesar de eu estar com um corte feio na mão. Disse para ela que ia subir ao banheiro para lavar a ferida, e ela se ofereceu para ir junto. Com um medo repentino e irracional de estar em um mesmo recinto que ela sem mais ninguém por perto, eu insisti que estava tudo bem, e subi as escadas.

Não vou mentir. O real motivo de eu ter corrido ao banheiro não era o corte aberto na palma da minha mão, que estava manchando as minhas roupas de sangue. Por causa do nervosismo, senti uma ânsia de vômito, e temi que pagar esse mico na frente de todos, e ainda por cima sujar a menina.

Fiquei algum tempo por lá, lavei a ferida, joguei água no meu rosto, respirei fundo por muito tempo, o que fez com que eu não vomitasse, e resolvi que estava bem o bastante para voltar para a festa. Abri a porta, saí do banheiro, e estava descendo as escadas quando a vejo. A menina, a que abriu um corte na minha mão, e me fez passar mal de ansiedade só por pensar em ficar à sós com ela, estava beijando alguém. Não. Ela não estava beijando alguém. Ela estava me beijando.

Paralisei, e assisti a cena por alguns minutos. Sim, eu fiquei alguns minutos beijando-a. Eu tinha certeza que era eu lá. Mas eu estava nas escadas, como poderia estar lá embaixo? Como ninguém me viu aqui,esgueirando-me para ter uma visão melhor da cena e tentando convencer-me de que não estava surtando? Mas eu estava surtando. Era eu lá, tenho certeza.

Depois que consegui voltar a me mexer, resolvi sair da festa. Desci as escadas e saí correndo para a escola, onde todos iriam virados depois da festa. Fiquei muito tempo no escuro e passando frio, mas eu não me importava. Pelo menos eu estava longe daquela realidade esquisita da festa. Era como se eu não existisse enquanto ninguém estivesse por perto, e isso aliviava a minha confusão.

Algumas horas depois, e agora sentindo a ferida latejar fortemente, as pessoas começam a chegar na escola. Mas algo estava errado. Elas não pareciam acabadas depois de uma longa noite de dança e bebida. Elas pareciam muito bem descansadas, e se espantavam ao me ver naquele estado deplorável, com a roupa suja de sangue e cara de quem ficou mais de 24 horas sem dormir. A confusão me atingiu novamente, e resolvi perguntar para um menino da minha turma, que eu tenho certeza de que estava lá:

-E aí, como foi a festa ontem?

Silêncio.

-Você tá bem? — perguntou o garoto.

-Estou… por que não me responde? Como foi a festa?

-Olha, não sei de que festa está falando, só sei que não fui convidado. E isso não me parece provável, então talvez você só esteja me confundindo com alguém.

E saiu. Eu não podia acreditar que o meu estado de confusão poderia aumentar, mas ele aumentou. Perguntei para mais umas três pessoas, e ninguém sabia do que eu estava falando.

Eu não estava enlouquecendo. Me lembro de tudo o que aconteceu, claramente, por mais que não faça sentido algum. Lembro que no momento pensei “tenho até um machucado que está doendo muito para comprovar”.

Mas aí eu olhei para a minha mão. E apesar da dor, não havia uma marca sequer nela. A minha roupa não estava suja de sangue. Mas a dor continuava.

Latejando.

Já se passaram dez anos desde esse dia. A minha mão ainda lateja.