Apenas uma crônica
Era um daqueles dias dado como perdido. Dormi tarde estudando para uma prova dificílima (que não tive tempo de estudar antes, graças a outros trabalhos acadêmicos) e acordei cedo para trabalhar. Olheiras sem fim. Humor desgraçado. Paciência de número negativo. Era um daqueles dias que nós acordamos obrigados. A primeira briga é com o despertador. Ele sempre vence.
Saindo de casa: ótimo, começou a chover! A previsão do tempo dizia que seria uma manhã clara e ensolarada, porém lá estava eu, no meio da chuva, correndo atrás de um abrigo, às 6h00 da manhã. A lei de Murphy adora nos contrariar nesse momento, porque eu estava em um lugar que não havia marquise e, é claro, nenhuma loja estava aberta. Corri, mas nada adiantou. A chuva me molhou. Molhou minha bolsa. Meus sapatos. Meu caderno. Eu estava enxarcada.
A chuva cessou e eu desisti de correr. Começou a ventar. Muito. Eu estava molhada e agora com frio. Peguei meus papéis de dentro da bolsa que estavam molhados, com a intenção de acelerar o processo de secagem com aquela ventania. Não deveria ter feito isso, pois em uma distração, os papéis voaram. Droga! Corri atrás dos papéis voadores. Corre. Corre. Corre. Ofegante, consegui pegá-los. Ah, não! Cadê minha outra sapatilha?!
Sim, tive que voltar o caminho que eu havia corrido atrás dos papéis à procura de minha sapatilha que, misteriosamente, saiu do meu pé quando eu corria. E o pior? Eu não percebi, acreditem ou não! Achei a sapatilha! Será que agora posso percorrer o meu caminho em paz? Continuei a caminhar apressadamente, pois naquela altura eu já estava atrasada. Não me importei quando um carro passou por uma poça d’água e me molhou de novo. Estava apressada demais para me importar com isso. Continuei a caminhar.
Passei por uma lanchonete que estava exalando um cheiro divino de tapioca amanteigada e café quentinho. Minha barriga roncou. Eu tinha tomado apenas um leite com nescau, estava com fome. Mais a frente, tinha uma menina sentada na calçada contando algumas moedinhas. Ela aparentava ter seus 12 anos. Eu passei e dei bom dia. Ela me respondeu com um sorriso lindo, juro que era lindo mesmo, “bom dia, moça”. Senti um impulso de conversar com ela. Em momentos normais, eu teria controlado e seguido em frente, mas aquela manhã estava longe de ser normal.
“Tudo bem com você? — perguntei.
“Sim…” — Ela respondeu, olhando estranho para mim — “Ah! E com você?”
“Sim, na medida do possível” — falei sorrindo.
“Por que?”
“Nada demais, essa manhã não está saindo como eu planejei.”
“Nenhuma manhã sai como eu planejo…” — ela parou olhando pro chão e continuou — “Mas nem se preocupe, moça, as coisas sempre melhoram depois.”
Eu refleti por um momento. Não sobre o que ela falou em palavras, mas o que ela falou por olhar. Foi simples, mas foi em um tom tão tranquilo e melancólico. É incrível como um olhar realmente fala mais que mil palavras. Um olhar descreve alguém melhor do que frases do tipo “Meu nome é Fulana, tenho x anos”. Eu senti uma energia vindo dela. Eu não sei explicar o que exatamente, mas eu pensei “do que eu estou reclamando mesmo?”
“Você está com fome?” — perguntei
“Uhum. Tá sentindo esse cheiro? Eu adoro tapioca.”
“Ah, eu também!” — Ela estava sorrindo para mim e eu já estava sentada do lado dela — “Quer comer?”
Os olhos dela brilharam. Mas ela, humildemente, respondeu: “Eu ainda não tenho dinheiro suficiente, mas eu vou conseguir!” — E então eu notei as moedas em sua mão.
“Vamos lá, aposto que você já tem o suficiente”. — E fomos, caminhamos até a lanchonete, sentamos e eu perguntei: “Quanto custa uma tapioca?”
“É R$ 3,50” — Disse o moço por trás da bancada — “Com café fica R$ 4,00”
Eu sabia que ela não tinha dinheiro suficiente, mas eu não pretendia que ela pagasse do dinheiro dela. Comprei três tapiocas, duas para ela, e uma para mim, comemos com café, e conversamos. Ela contou que saiu de casa para ajudar a família e que, provavelmente, não ficaria em Natal. Eu estava atrasadíssima, mas naquele momento, esqueci todos os imprevistos da manhã, todas as responsabilidades da tarde e me dediquei a ouvir a história daquela menina. Quando terminamos, dei a ela mais R$2,00 e desejei boa sorte. Nos abraçamos. Eu nunca mais a vi.