Celebrada por usar roupas masculinas, Casey Legler tem muito mais a dizer

Modelo e ex-atleta Olímpica que participa da nova campanha da Carrera fala sobre representatividade queer na moda.

Por Julia Mello — Publicado originalmente no site da ELLE Brasil em 21 de junho 2018


(Carrera/Divulgação)

Casey Legler, ex-atleta olímpica e modelo, foi escolhida pela Carrera para estrelar a sua nova campanha, a “Drive Your Story.” A label convidou personagens para contarem suas reais histórias de vida — entre suas vitórias e perdas — e como elas se relacionaram com o desenvolvimento de seu propósito. Casey está presente por uma gama de motivos: além de lançar seu primeiro livro,“Godspeed, que estará nas livrarias editado pela Simon and Schuster em julho, ela foi nadadora desde os 14 anos. Competiu nas Olimpíadas, perdeu e ganhou. Descobriu que queria cada vez mais ser quem era e, por causa de seu estilo único, tornou-se a primeira modelo designada mulher no nascimento a ser contratada da Ford Models para fazer campanhas e desfiles de marcas masculinas. Sua representatividade e sua abertura sobre sua sexualidade e sua visão de gênero abriram portas para que Casey fosse uma forte voz de aceitação e liberdade dentro e fora da indústria.

Em entrevista exclusiva à ELLE Brasil, Casey conta sua visão sobre a indústria, sobre seu trabalho e sobre a importância da nova campanha.

Em 2013 você escreveu um texto para o The Guardian no qual falava sobre a transformação da cultura queer em um produto ou em moeda de troca. Você acha que hoje, em 2018, o panorama mudou? Você pensa que o ativismo ainda está sendo usado pela mídia e pelas corporações para o lucro?

Eu acho que sempre existe uma linha tênue ao entrarmos em espaços públicos com uma história sobre alguma diferença. Eu tomei decisões de levar minha história, que é sobre diferença, para espaços públicos e às vezes isso significa trabalhar com empresas abordando questões de gênero ou cultura queer. Definitivamente existem alguns exemplo de negócios que usam a cultura queer como moeda de troca, assim como outras identidade marginalizadas, e que não usam sua influência e poder para contribuir com a mudança social e ir além de uma campanha. Isso me parece obter lucros sem investir na causa. Mas tenho que dizer que também vi exemplos de negócios e empresas que usaram sua presença para pressionar os direitos humanos, a proteção ao meio ambiente e a diversidade.

Por exemplo, trabalhar com a Carrera na campanha #driveyourstory foi uma experiência memorável para mim. A campanha chamou a minha atenção pois a ideia por trás dela tinha uma autenticidade crua, e contava histórias sobre falhas, vergonha e resiliência. Parte disso foi falar sobre cultura queer, mas muito disso também foi contar minha história com honestidade e ir além das minhas experiências com uma identidade queer, me tratando como uma pessoa completa.

A mágica verdadeira de trabalhar com a Carrera é que com esse processo, a marca e sua empresa irmã, a Safilo, trabalharam com a minha equipe para inscrevê-la no “United Nations LGBTI Standards of Conduct for Business”, uma estrutura de políticas que faz com que as empresas se comprometam a ter códigos de respeito aos direitos humanos em seu ambiente. Eu estava tão animada com esse processo porque trabalhar com a Carrera foi mais do que apenas contar minha história, também foi sobre a marca se comprometer com os princípios e ações que garantem que trabalhadores e acionistas que trabalham na Safilo tenham sua diversidade protegida. Eu não acho que negócios sejam a única solução para levar justiça social para comunidades queer — mas se feito com respeito e com consultoria eles podem ser parte de algo maior que contribui para as muitas soluções ao redor, e que tem potencial de fazer a vida dessas pessoas e das comunidades melhor.

O que você pensa sobre a cobertura da mídia e sobre a abordagem do fato de que você é modelo exclusiva de marcas masculinas? Você acha que a conversa sobre esse tópico deveria ir em qual direção?

É por isso que a cobertura da mídia sobre minha inclinação natural para usar roupas de “homem” me pareceu um pouco estranha, por fazerem algo que é normal parecer excepcional. Mas dito isso, tenho muitos amigos trans e que não se conformam com seu gênero, além de seus aliados, que falam comigo e me agradecem por eu ter tido espaço não me conformando com meu gênero, e por usar as roupas que eu gosto de usar.

Para alguns deles, minha visibilidade deu espaço para não conformar e para celebrar a diferença. Se a cobertura da mídia for suficiente para dar mais espaço para essas pessoas que não se conformam com a sociedade, acho ótimo. E também adoro ternos bonitos — então pra mim é superdivertido! Eu espero que a mídia que vem por aí amplie a discussão sobre gênero e dê espaço para todos os lindos gêneros que vão além de “homem” ou “mulher” — para mim isso é uma parte maravilhosa de ser um humano!

Você acha que a moda foi historicamente mais inclusiva com pessoas queer? Você acha que pode ser um espaço no qual pessoas que não são dos gêneros designados podem se sentir mais à vontade? Foi esse o caso para você?

Eu acho que pessoas queer insistiram em quebrar barreiras em muitas indústrias, e a moda foi uma delas. Mas a moda, assim como todas as outras áreas, pode ser um lugar tanto de muita celebração ou um lugar de muita hostilidade e opressão. Historicamente a moda excluiu muitas comunidades marginalizadas — mulheres negras, pessoas com corpos diversos, pessoas que não se conformam com gênero, pessoas com habilidades diferentes e pessoas mais velhas. Mas muitos foram fortes o suficiente para lutar por sua liberdade de expressão e fizeram demandas para serem vistas por quem são e serem apreciadas e respeitadas por isso.

Existem muitas pessoas quebrando essas barreiras hoje — como meus amigos no DapperQ em Nova York, ou meu amigo incrível que está tocando a Sovereign Collection na Austrália! Uma das coisas que eu mais gosto sobre ter crescido em comunidades queer é sua insistência na celebração e na beleza (em todas as suas formas), apesar das opressões. Eu acho que parte da nossa história queer é que a beleza criada e nutrida nas comunidades chamou a atenção e influenciou as indústrias da moda e do entretenimento. Por exemplo, “mulheres” vestindo roupas masculinas é mais antigo do que Joana D’Arc. A história recente inclui Marlene Dietrich, Grace Jones, Annie Lennox, Eileen Miles, Héloïse Letissier, Young MA e outras. Eu não sou a primeira e não serei a última e fico feliz com isso. Estou em ótima companhia.

Infelizmente o Brasil é um dos países que tem as maiores estatísticas de mortes de pessoas LGBTI no mundo. Como você acha que sua imagem e outras representações podem ajudar jovens e outras pessoas a viverem melhor nesse mundo?

Pessoas morrem todos os dias por causa de sua orientação sexual real ou percebida, ou sua identidade de gênero ou expressão. Uma morte já é muito. Jovens LGBTI também sofrem violência em todos os lugares — nenhum lugar está a salvo. Por exemplo, em minha própria cidade, Nova York, 40% da população sem moradia com menos de 25 anos de identifica como LGBTI. Eles não têm moradia porque suas casas e famílias não são seguras para eles.

O Brasil já percorreu um longo caminho ao reconhecer os direitos e a segurança das comunidades LGBTI. É verdade que o país ainda tem uma das maiores taxas documentadas de crimes de ódio contra a população LGBTI — mas é importante lembrar que é também um dos únicos países do mundo que coleta esses dados. Muitos países no mundo têm grandes números de crimes de ódio contra as pessoas LGBTI, mas a polícia ou o governo não enquadram essa violência pelo que ela é — ou pior, eles são parte do que perpetua a violência. O Brasil, assim como todos os países, têm um longo caminho, mas estão progredindo. Minha esposa trabalha em direitos humanos LGBTI nas Nações Unidas em Nova York, e o Brasil é um dos países com mais voz nesse espaço. Ele é parte do UN LGBTI Core Group, um grupo de países lutando por direitos humanos LGBTI no sistema das Nações Unidas — então isso é um começo!

É preciso ter esperança, esperança que conseguiremos seguir em frente de alguma forma. Então eu espero que minha imagem facilite a vida de jovens no mundo. Mas as nossas crianças precisam mais do que uma foto — isso é só uma parte da solução. Elas precisam de aliados. Precisam de pessoas que cuidem delas no caminho de casa para a escola, ou em casas nas quais elas encontram violência por serem quem elas são. Precisamos de políticas, reformam legislativas e sociais para ter certeza que essas crianças tenham educação, assim toda sua força e beleza podem contribuir com o mundo. O mundo é um lugar melhor com eles. Eu quero que eles saibam que eles são amados e que ser diferente não é algo ruim — é parte do que faz o ser humano tão especial.

Para todos lendo essa entrevista e que verão sua campanha para a Carrera: você pode dar um conselho sobre como ser mais você mesma?

Quando eu tentei ser algo além de mim mesma eu estava apenas vivendo meia vida. Estava vivendo com medo. É preciso coragem para ser quem você é e nem todo mundo vai gostar disso, mas o mundo precisa que assim você seja. Nos tornamos melhores como sociedade quando as pessoas vivem vidas autênticas. Eu me tornei mais honesta sobre quem eu sou com a idade e a experiência. Eu fiz isso com o apoio de pessoas boas ao meu redor — pessoas que me encorajaram a explorar e ser aberta sobre meus erros e aprender com eles. Me tornar quem eu sou hoje foi uma experiência de tentativas e erros e ver as “falhas” como uma parte central disso. Eu espero que eu nunca pare de ser aberta a me tornar mais quem eu sou — mesmo que o custo as vezes seja lidar com a intolerância de outras pessoas. Tem sido a melhor jornada da minha vida.

Júlia Anadam Mello

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Nunca consegui esquecer o título de um texto que li: "desmentindo despedidas"

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