O primeiro deck de tarô brasileiro criado por uma mulher
Conheça o tarô feminista Nosotras Tarot, feito por Elisa Riemer com inspiração direta do universo onírico.
Por Julia Mello— Publicado originalmente no site da ELLE Brasil em 2 maio 2018
Quando Elisa Riemer me contou sobre como o tarô entrou em sua vida, logoidentifiquei muitas histórias semelhantes. “Eu conhecia o tarô e a astrologia, mas não era próxima desses temas. Era preciso aquele ‘ver pra crer’, sabe?”, descreveu em entrevista à ELLE. Sei bem — afinal, eu já havia ouvido isso quando, pela primeira vez, tirei uma carta com uma antiga professora, Bianca Santana, em um curso de escrita criativa. Na época, em uma roda de mulheres, Bianca contou que, quando era mais nova, evitava esse tipo de aproximação com o mundo místico porque acreditava que “queria estudar coisas mais sérias”. Com o passar do tempo, mudou de opinião (para nossa sorte!) e teve um insight: de repente, o tarô tornou-se, na verdade, uma chave de acesso a uma fonte de muita sabedoria. Eu só podia imaginar: que tipo de conhecimento um simples baralho poderia guardar?
Elisa respondeu minha persistente dúvida de imediato: “O conhecimento de ti mesma. Muitas vezes achamos que viemos ao mundo para adquirir conhecimentos externos, riqueza, beleza. A gente só veio aqui para se conhecer, e esse é o principal legado que você pode ter na vida”, argumenta. Foi com isso em mente que a artista e colagista de Paranavai, no Parana, concebeu seu próprio baralho. Ela explica: “Existem vários tipos de jogos, mas o tarô é baseado em 22 arcanos maiores, aquelas figuras arquetípicas clássicas, como a Morte, e 56 arcanos menores. O primeiro grupo é conhecido por narrar uma trajetória que vai da carta do Louco à carta do Mundo.” Assim, Elisa iniciou sua própria caminhada como o primeiro personagem dessa trama mística: com a inocência daquele que se joga feliz no mundo, decidiu que faria um projeto de financiamento coletivo para criar um baralho com desenhos de sua autoria que priorizassem imagens que contemplassem as várias facetas do feminino.
(Nosotras Tarot/Divulgação)
“Demorei quatro anos para terminar, porque é preciso ter muito cuidado com a simbologia ancestral das figuras”, explica. Mas ela não se restringiu apenas às pesquisas de referências em livros e outros baralhos: “tive que tirar cada carta para saber que era o momento de desenhá-la, e pedia para que as imagens aparecessem em sonhos, pedia muito direcionamento. Foi um trabalho também de coração e intuição”. Por isso, a dinâmica variava: às vezes, os desenhos demoravam. Em outros momentos, no entanto, eram claros e bastavam poucosrascunhos para chegar à sua versão final. Evidentemente, esse processo decriação também foi uma forma de realização íntima, já que Elisa não é umataróloga propriamente dita. “As cartas me disseram que não posso ler para outras pessoas. Percebi que meu caminho era conceber esse conhecimento e essa relação de outras formas.”
As imagens compostas por Elisa — que lança mão de técnicas como ascolagens (manuais e digitais) a partir de postais de 1890 e 1930 — contam até com o uso de produtos de maquiagem para detalhes como a coloração das roupas. Além do resultado de estilo onírico, suas cartas também refletem o ambiente em que vive, tanto no âmbito pessoal quanto político. Não à toa, a artista privilegiou retratos exclusivamente femininos, inseriu diversidade corporal e nomeou todas as cartas com pronomes femininos (a Louca, a Sol, a Hierofante), e fez seleções assertivas: “a Justiça é uma mulher negra. A Sacerdotisa, símbolo do acesso ao mundo intuitivo, de uma sabedoria profunda, também é uma mulher negra. Não tinha como não ser”, afirma. Entre as suas inspirações, também está a criadora de um dos baralhos mais conhecidos entre as “bruxas” contemporâneas, a artista Pamela Smith.
(Nosotras Tarot/Divulgação)
O nome do baralho (“Nosotras Tarot — Uma jornada ao Útero Cósmico)”, que empresta o pronome pessoal na primeira pessoa do plural do Espanhol) é também uma homenagem às mulheres e à sua militância. “Tem um significado forte por ser uma palavra que me remete à América Latina. É um marcador e também um agradecimento às companheiras de luta feminista, pelas vezes que sofremos repressão e violência, inclusive policial.”
Esta última fala anda em paralelo à história do tarô. O mito de criação dos arcanos — diz-se “mito” devido as fontes incertas a respeito de sua origem — conta que todo o conhecimento e simbologia ancestral foram colocados em cartas porque um jogo de carteado nunca seria mal interpretado pelas autoridades nas ruas. Livros, documentos, reuniões e “feitiços” místicos, não aproveitavam da mesma discrição e, não raro, eram censurados, reprimidos ou, até mesmo, perseguidos na época da caça às bruxas. Decks tradicionais, como o de Marselha, são um retrato, um documento histórico, desses tempos escuros. O tarô de Elisa, com as reconsiderações contemporâneas e a preocupação com o lugar das mulheres na sociedade, é um marco da nossa.
“O ‘Nosotras’ vem com esse objetivo de tomar de volta o que já era nosso. A maioria das coisas que foram criadas por mulheres não tiveram os nossos nomes. Obras de arte, teorias matemáticas, teoremas filosóficos. Não tínhamos o direito de estar fazendo aquilo”, recupera. “Inclusive o tarô. Não é uma pessoa só ou um grupo que pode deter todo esse conhecimento. Somos uma nova geração, resgatando o que é nosso por direito.”
