Por que as mulheres se sentem vulneráveis quando não se depilam?

Uma nova geração de mulheres coloca a depilação na berlinda e discute como isso afeta a relação com seus corpos.

Por Julia Mello — Publicado originalmente na revista ELLE em novembro de 2017


Pinçar, raspar, remover, arrancar. Os verbos associados à depilação estão presentes no vocabulário cotidiano de qualquer mulher. O momento de questionamento dos padrões de beleza, no entanto, está abrindo caminhos para que coloquemos em xeque mais esse tabu relacionado ao corpo feminino.

Imagem da fotógrafa norte-americana Peyton Fulford.

Uma pesquisa de estilo de vida feita pela agência britânica Mintel concluiu que, em 2013, 95% das mulheres entre 16 e 24 anos afirmaram depilar as axilas. Em 2016, esse número caiu para 77%. A conversa sobre depilação — ou a ausência dela — vem rolando desde os anos 1960 e 70, como um símbolo da liberdade hippie e da luta feminista. Ao longo das décadas, artistas como Patti Smith (1977), Madonna (1984) e Julia Roberts (1999) se exibiram publicamente com pelos nas axilas. Se antes as ações eram pontuais, as mídias sociais agora revelam um grupo de jovens das gerações millenial e Z disposto a reavivar a discussão em prol da permanência dos pelos femininos.

De forma acessível, elas pensam sobre as origens e os significados dos sentimentos de inadequação e vulnerabilidade que surgem quando não nos depilamos

É o caso da artista sueca Arvida Byström, 26 anos, uma espécie de infuencer dos pelos corporais. “A feminilidade é, em grande parte, um conceito criado por nossa cultura e temos medo de quebrar os padrões relacionados a ele. Mas acho que todos podem ser femininos ou fazer coisas femininas”, escreve ela em seu Instagram, que conquistou 225 mil seguidores graças ao seu trabalho fotográfico focado em repensar o olhar sobre a mulher. Recentemente, Arvida se viu em meio a uma polêmica que lhe rendeu tanto apoio quanto ameaças de violência sexual simplesmente pelo fato de ela ter posado numa campanha da Adidas Originals com a perna não depilada.

Arvida na campanha da Adidas Originals.(Adidas Originals/Divulgação)

Outro nome internacional em defesa dos pelos femininos é a fotógrafa norte-americana Peyton Fulford, 22 anos. “Fotografando meus amigos, tento documentar como é entrar em contato com perspectivas mais abrangentes sobre a própria identidade, a beleza e os papéis de gênero através das roupas, dos cabelos ou da postura”, conta à ELLE.

No Brasil, Luiza Junqueira, youtuber de 24 anos, que comanda o canal Tá, Querida, tem levantado boas discussões relacionadas ao corpo feminino. Entre seus vídeos, os que falam sobre sua decisão de parar de se depilar há dois anos são os mais acessados da rede. Ela conta que enfrenta diariamente reações críticas toda vez que levanta o braço para se segurar no ônibus ou no metrô. “O fato de o meu pelo incomodar tanto só mostra que o patriarcado está aqui. A gente vive o machismo e precisamos discutir isso. Percebi assim a importância e a força de eu não me depilar.”

Junto com a tendência da não-depilação, aparecem cosméticos como óleos e cremes para amaciar os fios e manter os poros limpos, de marcas como a Fur, a queridinha de Emma Watson. A novidade reforça a quebra de estigmas que Luiza, Arvida e Peyton defendem. De forma acessível, elas pensam sobre as origens e os signifcados dos sentimentos de inadequação e vulnerabilidade que surgem quando não nos depilamos. E essa reflexão está a um clique de distância.

Júlia Anadam Mello

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Nunca consegui esquecer o título de um texto que li: "desmentindo despedidas"

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