Não há hora para arrefecer na luta contra o processo golpista

Foto: Paulo Pinto

Há muitos sinais de que uma parte dos progressistas, da esquerda, dos democratas e de gente que acredita num país soberano, está se conformando perigosamente com o processo golpista.

Este esmorecimento é um grande equívoco que precisa ser refutado energicamente e tem produzido ou permitido a ocorrência de erros brutais de estratégia na luta política.

Como é sabido nenhuma estratégia prescinde de tática. Estratégia aqui compreendida como linha de ação para alcançar objetivos de longo prazo e tática como a capacidade de se posicionar no instante tomando tanto como base a estratégia como a capacidade de aproveitar para acumular vantagens mais imediatas que não comprometam a execução da estratégia.

A referida conformidade se expressou de maneira bastante evidente, sem que todos os conformados comunguem com este fato, na pusilanimidade dos partidos que deveriam estar simbolizando a resistência ao golpe durante a votação para a presidência das casas legislativas federais. O que se repetiu, aqui e ali, também nas esferas estaduais e municipais.

Foi um erro estratégico crasso. Este comportamento jogou contra a construção da (re)tomada da iniciativa política. Se é certo que as forças do retrocesso mantêm a liderança no processo ora em curso, deveria estar infundindo ânimo aos que as enfrentam, que ao guiar o país com avidez e sofreguidão na direção do arrocho, do sucateamento do serviço público, da promoção da pobreza e da miséria, elas também estão expondo a jugular.

E isso o fazem com grande dose de arrogância, basta ver a nomeação do sofrível e incompetente ministro da justiça, o tucano Alexandre de Moraes, para o STF. Como se sabe, tal comportamento nunca foi inteligente em nenhuma disputa.

Após a aprovação da PEC 55, criminosa medida que pretende se sustentar pelos próximos 20 anos, o golpismo quer avançar a fórceps na destruição da seguridade social e na precarização do trabalho no país. Some-se aí os dissimulados planos de entrega do pré-sal e o desguarnecimento da indústria nacional, para ficar em algumas questões mais abrangentes e estruturantes.

Duros golpes como estes podem sonhar serem implementados, por governos de democracia formal, tão apenas em países de trabalhadores desmobilizados e fracos, mas somente num país de gente bovina podem considerar não encontrar a mais dura resistência.

Vale destacar ainda, por diversas razões que o noticiário mais trivial anuncia todos os dias, que as forças que sequestraram o comando do país demonstram que elas não estão tão consolidadas e coesas que não possam ver seu arranjo ruir.

Além disso, se for para adotar a perspectiva otimista de que haverá eleição em 2018, é necessário lembrar que o tempo corre e um disputa desta envergadura não se dá só na hora agá. Até lá a batalha precisa ser travada diariamente.

É preciso dispor do melhor de nossas energias para sustar as regressivas bandeiras que assaltaram o aparato de estado e que apontam para um futuro de exclusão, destruição de direitos sociais e quebra de legalidades democráticas.

Em todo lugar se pode, e hoje se deve, fazer o debate político, assim como a promoção das mais diversas atividades que engrossem este enfrentamento.

A microfísica do poder que desvelou Foucault deve ser aqui recordada e em tempos de incerteza e instabilidade cada gesto tem muito mais potencial de fazer a diferença como faz observar o sociólogo Immanuel Wallerstein.