Tomando a contrapelo a acusação de preguiça

Banhistas em Asnières (1884), Georges Seurat
“Se alguém quiser reduzir o homem a nada, basta dar ao seu trabalho o caráter de inutilidade.” (Fiódor Dostoiévski)

quem não quer reivindicar espaço para a preguiça, quem crê que quando se diz que alguém é preguiçoso isso não pode ser bom. Sucede aí uma interpretação unilateral que impede atentar o que pode ser descortinado a partir desta qualificação de viés acusatório e deletério.

O fato é que ser preguiçoso é, de diversos modo e mais que nunca, um grande atestado de inteligência: é amar antes viver que se matar de trabalhar!

Não se pode mais abdicar do potencial emancipador da preguiça. Num mundo que gira de modo automático ao redor da busca demente e monolítica pela acumulação de capital — nas suas mais insuspeitadas formas— lubrificado ainda pela ladainha arcaica de que o trabalho edifica e enobrece o “homem”, 
a preguiça tem um caráter revolucionário!

O pior é que há quem literalmente se mate de trabalhar para manter o mundo girando nessa chave nefasta e tediosa. E não falta ainda quem cometa as maiores atrocidades com o pretexto de que: “é meu trabalho”!

Claro que a preguiça aqui defendida não é a caricatura bizarra de pessoas incapazes de fazer o que quer que seja e ainda menos de modo primoroso. 
É antes a capacidade de recusar estar envolvido em atividades não refletidas de maneira cada vez mais obcecada em cumprir com o surto de demandas estimuladas por tudo que é lado. É a habilidade de se desviar do produtivismo incessante das máquinas de calcular.

Enquanto não se abandonar este culto ao trabalho abstrato, destituído de sentido, que despreza a sensibilidade em nossas vidas, é preciso que se diga em alto e bom som: longa vida à preguiça!

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