Arte

As pessoas sentaram-se em seus lugares. As portas do teatro fecharam-se, a cortina abriu, um holofote acendeu e focou no quadrado de madeira de dois metros de altura por dois metros de comprimento no centro do palco. 
Uma mulher entrou, ela estava sem roupas. Ela caminhou em volta da tábua falando.
"Vocês são podres! Todos podres, vis, por isso são um tipo de arte. A arte, vejam vocês, é podridão idealizada, uma realidade falsa, onde justificativas valem mais que o palpável." — Ela parou na frente da tábua.
"O lixo é arte se eu disser que retrata a sociedade, explodir a cabeça de vocês é arte se eu disser que retrata o fluxo de informações e os novos tempos." — continuou.
Então, dois homens com tambores entraram, ficaram em cantos opostos na frente do palco e começaram a bater nos tambores.
Duas mulheres empunhando adagas entraram e ficaram em lados opostos próximas a tábua, outras duas mulheres entraram e foram para a frente da tábua, elas fizeram um sinal de reverência para a platéia e viraram-se para a mulher que havia falado. Logo a prenderam na tábua. 
"A arte é a podridão idealizada! A podridão vil! A podridão falsa!"
Ela gritou enquanto era presa na tábua.
"A morte é a verdadeira arte, esta sim real, esta sim bela."
As mulheres tiraram suas adagas das bainhas.
"A arte é podre. O lixo é arte e o lixo é luxo. Vocês comprarão o que eu quiser se eu der uma boa justificativa. Vocês são piores que a arte e a arte é o lixo do mundo!"
Os tambores ficaram mais rápido. As mulheres ficaram de frente uma pra outra. Estenderam a mão da adaga até quase se tocarem, e moveram o braço em direção a platéia, firmaram a pegada e começaram golpear a barriga da mulher presa.
"Eu lhes dou arte de verdade! A morte na frente dos seus olhos. Sangue espirrando na primeira fila, a verdadeira arte, nua e crua para vocês."
O sangue descia pelas pernas da mulher e se espalhava pelo palco, as mulheres continuavam golpeando.
"Aplaudam seus vermes, aplaudam!" — a mulher gritava com toda a força que ainda lhe restava.
E após mais alguns golpes a mulher fechou os olhos. Para sempre. As mulheres pararam. Os tambores também.
A multidão do teatro levantou e gritou batendo palmas. Foi um grande espetáculo. As mulheres agradeceram, os homens também. A cortina se fechou.