Sherlock Holmes e os homens que explicaram o feminismo

Texto contém spoilers!

Sherlock consegue ser um dos seriados mais aguardados do ano. Talvez até porque ele te faz esperar dois anos por um episódio. Mas como vida de viciado em seriado é vida de sofredor: a gente espera, a gente sofre, a gente se apaixona pelo episódio novo e recomeça o ciclo.

Eu estava ansiosa para o especial de Natal. Não só porque “mais um episódio FINALMENTE!”, mas também porque a gente ia ver Holmes e Watson na era vitoriana, com direito ao toque de clássico que era o único aspecto dos contos originais que a gente — por motivos óbvios — não imaginava poder ter.

Quando eu assisti o episódio pela primeira vez, no começo do ano, eu percebi duas coisas:

1. O episódio trouxe um pedido de desculpas pela sua misoginia sempre presente

2. O episódio falhou nesse pedido de desculpas.

De modo geral, eu apenas respeitei a tentativa, porque como já disse a maravilhosa Bell Hooks “Assim como as mulheres, os homens foram socializados para aceitar passivamente a ideologia sexista. Eles não devem se responsabilizar por terem aceitado o sexismo, mas devem assumir a responsabilidade para eliminá-lo.”

Em outras palavras: como fomos todos cozinhados na mesma panela social do sexismo, é inevitável que ele esteja em cada um de nós. Não é nossa culpa que ele esteja lá. Mas é nossa responsabilidade mudar as coisas.

Sherlock, assim como a maioria dominante da cultura pop, tem diversos elementos misóginos. Seja pela reprodução de elementos originais da obra de Conan Doyle, seja pelo sexismo subconsciente presente em roteiristas, diretores e produtores que estão na panela social com o resto de nós: a misoginia está lá.

Então, ao perceber os próprios erros, tentar trazer temas como feminismo e flashbacks do próprio Holmes percebendo como tratou as mulheres, eu escutei o pedido de desculpas de toda a equipe do seriado e respeitei a tentativa.

Mas por que, deusa, por que eles tiveram que se sair tão mal na empreitada?

Eu já tinha percebido a maioria desses problemas quando assisti pela primeira vez, mas foi apenas reassistindo há pouco que eu percebi quão profundamente eles, infelizmente, falharam.

Via de regra, Sherlock é, sim, um seriado sexista. Se passa quase que exclusivamente entre personagens masculinos — mesmo quando poderiam facilmente ser substituídos por femininos em uma recontagem moderna — e às mulheres restaram os papéis de vítima, papéis hipersexualizados (eu discordei de muitas colegas feministas e até gostei da Adler da BBC, mas “hipersexualizada”é uma definição inescapável), papéis de bobas ou papéis das eternas apaixonadas que abrem mão de todos os aspectos de suas vidas para atender aos desejos do homem e são — por esse exato motivo — repetidamente usadas por tais homens.

Eu vou repetir que gosto do seriado porque acho que, a esse ponto, a informação pode ter se perdido. Gosto apesar da misoginia porque acredito que, embora presente, ela se encontra naquele nível do “vamos ver, vamos criticar, vamos tentar mudar, mas vamos assistir”. Porque, verdade seja dita, se quisermos consumir cultura popular que não tenha qualquer resquício de preconceito, a solução será não consumir cultura popular. A luta é para que um dia esse cenário mude, mas enquanto ele não muda, nos reservamos o direito de ver os filmes, os seriados, os desenhos… fazendo as devidas críticas.

O último episódio de Sherlock “A Noiva Abominável” retrata um caso impossível de uma mulher que parece ter voltado do doce abraço da Morte para matar o marido. Daí se segue toda a trama investigativa, com direito a interlúdios que se passam no “presente” e que parecem ter servido mais para confundir o espectador e causar revoltas em redes sociais que para avançar na narrativa. Não que eu esteja reclamando! Esse é outro ponto em que discordei avidamente dos críticos gerais de Sherlock: eu achei os lapsos temporais originais, inteligentes e, para mim, funcionaram na história.

O grande problema é o desenrolar da trama.

Mais precisamente o momento em que ele descobre que, na verdade, todo o assassinato foi uma tramoia cuidadosamente executada por um culto feminista que queria colocar o horror no coração dos homens.

É o trope da feminista de palha elevado a enésima potência: Aquele movimento feminista que existe em lugar nenhum a não ser na opinião dos sem-noção pela internet e na cabeça dos roteiristas hollywoodianos.

A própria representação de feminismo como um “culto” já é uma coisa irritante. Somado ao reforço do mito de que feministas são mulheres que odeiam homens e querem matá-los, e ao figurino escolhido que foi digno da KKK (bem literalmente), eu diria que o suposto “pedido de desculpas” falhou. E falhou pateticamente.

O episódio sequer passa no teste de Bechdel e mulheres seguem “não interagindo” entre si no seriado, enquanto os roteiristas reduzem um movimento justo a um grupo de mulheres que queriam vingança.

Isso, por si só, já seria ruim o suficiente… Mas nós ainda tivemos a cena em que um grupo de supostas sufragistas precisou ouvir uma explicação sobre o que é a luta feminista. Explicação essa que foi dada por… um homem. E não me importa que ele seja Benedict Cumberbatch ou que a história toda tenha se passado, na verdade, dentro da cabeça de Sherlock, um homem preconceituoso e arrogante.

Não me importa porque existe um ponto em que nós temos que parar de perdoar os personagens pelos erros dos roteiristas. Sherlock é uma criatura fictícia, restará desculpada. Os roteiristas que lhe deram vida são pessoas bem reais, precisam ser responsabilizadas.

Principalmente quando Mary estava bem ali!

Bem do lado, falando nada! Apenas esperando! Bom senso é de graça e não custaria nada dar a ela algumas das falas de Cumberbatch.

As implicações disso para nós, mulheres, são as de sempre. Nada que não estejamos, infelizmente, acostumadas.

As implicações dos fatos para o seriado… veremos.

Daqui a sabe-se lá quanto tempo.