Estranhos, recolhidos e carentes

Somos todos nós!

As redes sociais foram abraçadas por todos nós como uma página de diário, uma janela nada discreta, uma tela particular, um pequeno big brother, e nos esbaldamos como bem queríamos ser vistos! Dizíamos bom dia, todos os dias! Demos ‘checkin’ em cafés, lanchonetes da moda, restaurantes, tudo com foto! Com selfie! Com biquinho, abraçadas às amigas, com o look da night, partimos! Fotos de shows, do dia de sol na praia, da chuva, da lua (aqueles borrões que a gente tanto insistiu), do prato do jantar, do sorvete, do buquê do namorado novo, estávamos num relacionamento sério! E daí vieram as opiniões… No início, meio que tínhamos, quase todos, um grande consenso sobre o capítulo da novela, a gravata do Bonner, o frio que chegou ou a primavera linda cheia de flores! Mas também não conseguimos esconder nossas doentias paixões como o futebol! E pensar que teríamos saudades da época em que nossa rivalidade era apenas entre flamenguistas e vascaínos, atleticanos e cruzeirenses… A coisa começou a piorar, veio a política, o feminismo com a polêmica do aborto, a polarização, nós e eles, parto normal e cesárea, minorias e maiorias, oprimidos e opressores, milhares de juízes, centenas de entendedores de tudo, a patrulha dia e noite! Estávamos perdidos!

De repente descobrimos que não queríamos ser tão íntimos de 500 amigos! Não, ninguém quer ter um milhão de amigos, dá trabalho, suga nossa energia, nosso tempo! A gente só quer ter relações de verdade com algumas dezenas de pessoas, o resto a gente quer só dar bom dia (pessoalmente quando esbarrar na rua!) e parabéns no dia do aniversário. A gente quer ter ‘contatos’, conhecidos, a gente quer um canal de comunicação mas a gente quer ficar na nossa, sem alerta do messenger! E não quer saber da sua opinião sobre a alimentação sem lactose, sua corrente de oração para Santo Expedito, seu treino na academia do bairro ou sua coleção interminável de receitas ‘Tastemade’! A gente não está interessado no aniversário do seu cachorro, nas frases de autoajuda com fundos de belas paisagens, no alface que nasceu na sua horta, muito menos em sorteios de lojas que você nunca compra mas te marcam mesmo assim!

Cansamos! Estamos nos recolhendo ao anonimato e estranhamente estamos curtindo, estamos nos afastando virtualmente aos poucos, deixando de seguir, deixando de visualizar, de curtir, de comentar ‘lindaaaaa’, deixando de abrir todo e qualquer vídeo. Poucas coisas ou quase nada nos interessam… E sentimos um enorme estranhamento quando a própria rede nos remete à uma recordação de 5 anos atrás em que você publicou… ‘Estão todos indo para o show da Ivete, né? Parem de fazer inveja! Estou tão longe, mas posso sentir a animação de vocês por aqui… Aproveitem por mim!’ O que? Show da Ivete? Com quem eu achava que estava falando? Pra que eu publiquei aquilo? O pior é que muitos comentaram… Quero nem imaginar então o que eu publicava no orkut!!!

Ainda bem que o deslumbramento está baixando! Pra desespero do Mark! Mas é isso, a fama não é tão bacana como parece, a intimidade é algo estranho, porque somos estranhos sem maquiagem, temos manias e opiniões esquisitas e diferentes, somos malucos, contidos, espalhafatosos, carentes, humanos que vivem em sociedade, mas que estamos sempre aprendendo sobre como melhorar esta convivência!

E lá vou eu postar este texto em alguma rede social sobrevivente!