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Eu nunca quis ser um escritor. Nunca escolhi ser um

Gostaria de ser outra coisa

Por quê?

A sensação de que as palavras nunca vão ter fim, dos pensamentos surgindo em todos os momentos e eu sendo incapaz de guarda-los. Alguns deles morrem. Outros desaparecem. As ideias me corroendo para serem escritas, linha atrás de linha sem nunca chegarem ao fim. A sensação de que nunca vou ter tempo para escrever tudo que quero, e, portanto, terei de assassinar palavras dentro de mim para que outras sobrevivam. O peso da escolha, o medo de escolher errado e calar uma que merece viver mais do que a outra. Como se escolhe o quê matar e o quê salvar? A primeira palavra que deve está ali no topo da pagina? Ela me assombra toda noite. É uma sensação incrível, indescritível, enche meu coração de energia, mas me assusta. Assombra.

Para que fique claro: eu nunca publiquei nada que mais de trinta pessoas tenham lido. Se fiz nunca descobrir, mas acredito que não. Não me coloco como um escritor no ponto mais glorioso da palavra, mas como o garoto de doze anos que percebeu que podia fazer aquilo e nunca mais conseguiu desfazer. Ele nunca conseguiu. Nunca descobriu um jeito depois de riscar a primeira linha e ver o prazer nas palavras surgindo. Se ao menos alguém tivesse dito aonde ele estava se enfiando, se alguém o tivesse avisado. Besteira. Ele teria escrito do mesmo jeito.

Meu português é ruim. Minha gramática vacila entre os dedos, e minhas mãos tremem se escrevo por muito tempo, mas eu não sei o que é muito tempo. Escrever me rouba a sensação de presente. Eu nem sinto o tempo. Tanto faz ser dia ou noite.

Agora mesmo enquanto escrevo este texto, exatamente nessa linha aqui, estou me debatendo com todas as ideias do que escrever na linha seguinte. Pela manhã quando pensei sobre o texto, achei interesse dizer que tudo que escrevi pode ser comparado ao último episódio da série Lost, tinha tudo para terminar de uma forma razoável, tanto potencial, mas não. Fracassou. Miseravelmente. Porém escrevo mesmo assim. Coisas ruins. Coisas boas. Coisas. Escrevo sobre felicidade, tristeza, alegria, dor, fantasmas, superação, crescimento, e sobre o que é ser humano. Deus, e como é difícil escrever sobre este último. Não só no sentindo de colocar palavra atrás de palavras, pois elas vêm como o fluxo de um rio que nunca para de correr. Nunca estou pensando em nada que não comece a pensar em um novo livro. Viu. Acabei de me perder aqui. Agora é de tarde, enquanto escrevo, e as ideias são outras. As coisas que imaginei de manhã enquanto ia ao mercado se perderam dentro de mim. Eu não as anotei. Não tinha papel na hora. Elas eram tão incríveis, tão melhores do que isto aqui. Eu as perdi. Elas estão aqui ainda, em algum lugar, elas nunca vão embora, apenas não sei mais quem elas são.

E perco tanta coisa. Tantas palavras. Tantas histórias.

Outro dia conversando com meus amigos disse a eles que media minha proatividade do dia de acordo com a minha capacidade de escrever laudas. Se escrevo muito foi um excelente dia, se não escrevo nada foi um péssimo dia, não importa o quanto sorria. Foi um dia desperdiçado. Final de semana passado eu escrevi quinze páginas. Sete e meia por dia. Foi incrível. Senti-me invencível. Saí de casa e fui me divertir com meus amigos. Meu trabalho estava feito naquele dia.

Por favor, não me entenda errado pela última frase aí de cima, eu raramente deixo de sair para escrever. Embora algumas vezes queira, não faço. Isto não significa que minha mente não queira escrever. Ontem no ônibus — e ontem pode ser todos os dias e qualquer dia do futuro — eu vive um momento inesperado, quando quis fugir dele eu pensei no livro que estou escrevendo agora. Quando me entreguei a ele, pensei em como ele daria uma boa história.

Uma boa história? É. Isso é impossível de não fazer. Tudo que acontece comigo eu transformo em história. Tudo. Noventa por cento não são escritas. Ou mais. 99%, permita-me ser honesto. Mas tudo é história. E isso me incomoda algumas vezes, agora, por exemplo, ainda estou pensando no que me aconteceu no ônibus, tentando entender o ocorrido, tentando encaixar os acontecimentos no tempo, calculando as variáveis de uma decisão difere, ela sem dúvida daria uma história incrível sobre destino e como algumas coisas são destinadas a acontecer.

Queria deixar de ser um escritor porque nunca consigo deixar de ser um. Desde os doze anos, eu nunca consigo viver só no mundo real, minhas expectativas são estratosféricas, sou estupidamente louco por possibilidades, viciado em ocasionalidades e coincidências. Apaixonar-me é uma dificuldade. Eu surto com as chances, com as possibilidades.

Conhecer novos amigos também é história. Fiz um livro pro meus amigos. Mais de um, eu acho. Fiz um livro para meu primeiro amor. Escrevi um livro sobre meu medo de ficar louco. Escrevi um livro para esquecer alguém, e às vezes escrevo e apago quando termino, porque queria apenas me esvaziar. Tirar o sentimento de mim. O melhor livro que escrevi é sobre uma pessoa que não existe mais.

Eu estou sempre pensando em histórias, vivendo-as dentro da minha cabeça, tanto que às vezes andar no mundo real parece menos real. Queria mesmo deixar de ser um escritor, de não ter tantas palavras dentro de mim. Queria deixar de ser um escritor porque nunca serei publicado, e não terei como viver das minhas palavras. Vou morrer de fome. Vou ficar na ilha como Jack. Oh, mas isto ás vezes é um alivio também, significa que não vou precisar me enquadrar ao “nossa linha editorial”. Meus livros não serão vendidos. E tudo bem. Eu nunca sequer tentei ser publicado mesmo. Minha mente diz que não sou o tipo de autor publicado. Vou ser escritor pretenso minha vida inteira. Isso é horrível e libertador. Talvez mude de opinião no futuro, talvez tente se um escritor publicado. Ou não. Nunca dá para saber essas coisas comigo.

Eu nunca quis ser escritor, eu nem sabia que dava para ser escritor quando mergulhei na piscina, mas sabia o que queria fazer quando emergi. Acho que nunca tive chance. Nunca houve outro caminho. Talvez o gene esteja no meu DNA ou talvez seja um dom ou quem sabe apenas não sei fazer outra coisa. Acho que é a terceira opção, mas posso está querendo parecer humilde para você gostar de mim e não pensar que sou pretensioso.

Ser escritor me liberta, me sufoca. Me alivia e me tirar o ar. Me faz feliz e triste, alegre e descontente. Me causa raiva. Causa-me dor. Livra-me da dor. Nunca pensei que ser uma coisa poderia me fazer sentir os dois lados da moeda ao mesmo tempo.

Cara, como cansa viver dentro da cabeça de um escritor, de saber que este texto já está ficando grande demais, e vou ter de termina-lo sem dizer metade do que queria dizer. Vou matar tantas palavras. Tantos parágrafos. Ou talvez eu apenas as omita de vocês, escreva-os para mim. Mas eu queria ser outra coisa, queria ter outro dom, DNA, ou apenas saber fazer outra coisa, mas não consigo. Qualquer outra coisa parece incapaz de ter o mesmo significado. De me fazer sentir do mesmo jeito. Não quero ser um escritor, mas doí tanto pensar em parar de escrever.

Doí imaginar que nunca vou ver meus personagens de novo, que eles vão ficar parados no tempo, sem nunca ser o quê eu poderia fazer deles. Vê-los morrer sem chegarem ao seu potencial máximo. Quem espécie de monstro faz isto? Mas eu tenho que parar porque ninguém vai conhecê-los.

Queria deixar de ser escritor para saber se paro de ficar contente pelas coisas ruins que me acontecem. É material. Como posso falar de algo que não senti de verdade, não é? Mas eu falo. Falo porque eu sinto, porque as palavras estão aqui.

E elas são tantas. Tão barulhentas. Exigentes.

Eu nunca quis ser um escritor, mas de 2008 até este dia, já escrevi 34 livros. Estou escrevendo o 35º, e tenho planos para outros 22. Ano passado, 2016, eu escrevi sete livros com media de 150 laudas. Esse ano eu vou escrever menos, prometi a mim mesmo que escreveria menos.

meu pessoal

Prometi a mim mesmo que iria calar o gene escritor dentro de mim, e viver mais na realidade, não importa as cores dela, não importa o quanto de expectativas se dê para se ter nela.

Eu nunca quis ser um escritor para começo de conversa, então posso parar.

(risos) Se pelo menos fosse assim.

Hoje eu escrevi sete páginas. Oito com estar última. Foi um bom dia.

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