Sinto muito, mas eu não discuto sobre política.

Game of Thrones HBO

O motivo principal disto são as pessoas e não a política em si, mas a ânsia de vomito que sinto somente em pensar no quadro de pessoas que ocupam seus assentos. Nada piora mais o meu dia do que abrir um feed de notícias e ver acusações por cima de acusações misturadas em um enredo de baixo orçamento que nem dá para fingir que é ficção ruim.

Sabem aqueles filmes canastrões que assistimos e eles são tão ruins mais tão ruins que rimos porque eles são exageradamente péssimos? Pois é. Nem esse tipo de ficção dá para acreditar que é.

Contudo, tem um episódio a mais que me fez parar de discutir política, e explico esse motivo no pequeno conto abaixo:

Era uma vez um homenzinho que atendia por um apelido referente à sua capacidade de dizer onde ficavam os lugares da cidade na qual morava. Ele era um entregador de pizza conhecido nas redondezas. Um dia se candidatou a um cargo público na corte, foi eleito, mudou de vida. Porém o homenzinho com apelido estranho se tornou ganancioso e colocou no bolso mais do que deveria. Ele foi pegue, preso, caçado e jogado de volta a vida comum e desconhecida. O homenzinho não se satisfez em mudar de vida, não controlou o tamanho do olho.
O homenzinho caiu.

Fim da história.

Essa história é horrível. Provavelmente a pior coisa que já escrevi na vida, e olha que já escrevi muita bosta. Contudo, é verídica.

O homenzinho ganancioso não satisfeito com o salário de vereador decidiu que podia se apropriar da verba de gabinete, roubando seus funcionários. Foi preso, solto, caçado, perdeu o mandato, mas a cara de pau permaneceu limpa suficiente para ele tentar uma reeleição.

Tudo bem, no nosso cenário atual não devia me surpreender com tal notícia ou mesmo ter deixado isso me fazer parar de discutir política, mas me fez porque no fundo eu tinha esperanças de que um pobre coitado pudesse fazer a diferença quando chegasse lá, que por ele ter saído de lugar nenhum pudesse pesar nas pessoas que continuam em lugar nenhum.

A eleição dele seria um alívio em um cenário de governantes ricos que tentam manter as pessoas de Lugar Nenhum lá. Entretanto o tiro saiu pela culatra e o homenzinho se rendeu ao charme do dinheiro e do jogo sujo, meteu a mão no quanto pode. Tentou tirar ainda mais do que era seu e se tornou como os outros.

Tornou-se apenas mais um lá na assembleia legislativa fazendo o que eles fazem quando descobrem o pote de ouro.

Primeiro de tudo, gostaria de deixar claro que não estou julgando ninguém de acordo com a condição social ou financeira, pois acredito que pobreza não é atestado de humildade e muitos menos riqueza atestado de maldade. Ser uma pessoa decente é questão de caráter exclusivamente. Pessoas ruins estão por aí, em todos os lugares, de todos os jeitos, formatos e volumes da carteira.

O que me chamou atenção no caso desse homenzinho é o fato de como construímos nossos heróis, de como esperamos que alguém venha em seu cavalo branco de tão tão distante e salve tudo e a todos, mude tudo. Infelizmente isso não acontece na vida real, nós não temos nenhum herói além daqueles que fabricamos, e eles em sua maioria não estão dentro de nenhum meio cenário político atualmente, pois o jogo sujo os revira o estômago. Os heróis da política comumente são mais como o Duas Caras do que como o mocinho justo e destemido idealizado.

Vejamos o caso de Ned Stark, de Game of Thrones, ele era um homem orgulhoso e conhecidamente justo, e teve o fim que teve por não ter habilidade nenhuma no jogo de cintura político. Ele não era uma pessoa política, e aqueles que entram nesse cenário sem saber jogar ou entender o jogo a morte é certa.

Eu procuro saber sobre política, me informo e estudo quando posso, mas não discuto. Vejo opiniões diferentes em meios diferentes, tenho uma inclinação para um dos lados como todo mundo deve ter nesses dias, porém não falo delas a torto e a direito, não entro em ringues de rixa de dois lados porque não acredito que nenhum dos lados esteja mais certo do que o outro a tempo inteiro. Existem questões, e questões merecem ser discutidas por visões diferentes. Preferencialmente sem gritos e acusações, ou ego, já que a questões devem ser debatidas visando o bem geral.

Lá não tem paladinos e nem templários nos defendendo. O que nós temos são homens grandes e compromissados com um jogo, enrolados em novelos de linhas sendo puxadas por outros. Um engodo tão fundo que nem sei se eles conseguem se livrar ainda nessa década.

Eles lá não pensam em nós como o bem maior, eles pensam no futuro deles, eles pensam nos acordos que podem fazer para facilitar a vida deles e encher suas caixas fortes com mais moedas douradas. Afinal de contas eles têm contas a pagar, favores a devolver, chantagens a serem sustentadas, e tudo o mais que sabemos existir, mas o roteiro nos deixa de fora porque essa parte nem é tão importante assim para a narrativa.

E para quê não é?

É ficção. Ruim.

Mas apenas ficção.

No fundo gostaria de culpa-los por isto, de dizer que começou agora, mas nas pesquisas profundas que fiz enquanto estudava e ainda discutia política de maneira acalorada, percebi que culpar os que estão lá por perpetuar os atos dos seus antecessores é a mesma coisa que achar que tudo começou em 2000 quando Lula foi eleito.

O homenzinho está em todo lugar, e não vai melhorar porque as pessoas que podem fazer alguma coisa estão ocupadas demais fazendo alguma coisa real, pois imagino que uma pessoa decente não aguentaria ficar no plenário até os sessenta ou setenta anos lutando por uma cadeira, criando escândalos e culpando outros para disfarçar suas próprias falhas.

Pessoas decentes cansam.

Elas se sentem mal, elas lutam, elas resistem, mas cansam eventualmente. Cansa ver tanta coisa ruim sendo feita de uma vez, e nós sabemos disso. Você por acaso não se sente cansado?

Infelizmente o que estamos cultivando nesse momento é o mérito solitário, aquele onde ser reconhecido como o cavaleiro alado é mais importante do que salvar as pessoas em si. Estamos criando heróis e jogando nelas a responsabilidade de limpar a casa inteira. Um exército de um homem só. Pior, ele pode acabar sendo um herói que muitas vezes nem tem o interesse que você pensa que tem.

Sou um melancólico meio fatalista, esperançoso controlado que sabe que as coisas tendem a piorar antes de melhorar, sendo assim acredito veemente que as pessoas podem melhorar no futuro, mas para isso elas precisam ver a bondade sendo espalhada da mesma forma que a má conduta se espalha.

Acredito que tirar vantagem das pessoas menos avisadas não é sinal de esperteza nenhum, mas de pouca decência. E num país como pouca decência o ódio se torna uma grande erva daninha, pois sem solidariedade e empatia o mundo do homem pequeno gira apenas ao seu redor, e imaginariamente, ele não precisa de mais ninguém.

Por isso não discuto mais política com meus amigos. Ao invés dela falo de outras coisas, como do meu trabalho que amo, da vontade de viajar, e das pessoas legais que conheço nas minhas andanças por aí, mas como não ando muito, acabo mais escutando do que falando.

Fico feliz em dizer que não perdi nenhum amigo por causa da política, e meus conhecidos permanecem conhecidos. Aceno para eles quando passo na rua, às vezes, até trocamos um Oi caso ninguém esteja com pressa.

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