O mais difícil dos talentos

Ricardo Santos
Jul 20, 2017 · 3 min read

Eu me julguei a escrever esse título. Tá muito simples. Poderia fazer melhor. Sétimo semestre de jornalismo e tu não consegues criar algo mais chamativo ao teu leitor? Eu me julgo. Depois julgo os outros. Estes provavelmente me julgaram, também, ao ler o texto. Eu não sei por que sou assim. Alguém sabe?

O exercício do não-julgamento é mais complicado do que parece. É algo que depende de tantas variáveis quanto possam existir. Seu humor, a pessoa que está se pronunciando, o contexto, o público, o momento. Tudo. Não é como andar de bicicleta. Uma vez aprendido, não garante que daqui horas ou minutos já não esqueçamos. Deve-se exercitar constantemente.

O discurso da empatia vem ganhando espaço. Nunca a violência ao outro foi tão explícita e numerosa. Se a culpa é da internet, não vem ao caso; entretanto, temos que pontuar a potencialização do discurso de ódio no ciberespaço. Já pararam míseros segundos do dia para olhar comentários abaixo de uma notícia de um portal? É assustador. E são pessoas. O que as fez se transformarem no que são? Eu, menos resguardado de humildade, mas ciente do quanto julgo diariamente, fico espantado que existam discursos assim. Existem níveis. Os que já estão com água no pescoço no oceano de ódio, como estes comentaristas de portal, são mais difíceis de resgatar. Contudo, não por isso, mereçam que o mesmo ódio que carregam se volte contra eles. E os bem intencionados?

A intencionalidade é sempre diferente da real ação. Claro, quem clama por mais empatia começa, na teoria, um bom caminho. Encontrar um pedaço do outro no seu interior e interpretar comportamentos, sem julgamento, é o ápice do exercício. O problema é quando essa empatia é seletiva. E acontece a seleção, sem dúvidas. No meio das sensações agressivas que o julgamento traz consigo, é lá no fim, no momento de respiro, que começamos a enxergar o quanto fazemos mal a si mesmos e ao outro pelo que dizemos.

Eu, pelo menos, pensei em tantas situações. De hoje. De ontem.

Uma das poucas pessoas com quem conversei que nunca senti um olhar de julgamento foi meu psicólogo. Era impressionante. Um talento que me causava inveja, de verdade. Mesmo quando eu já tratava do meu comportamento com depreciação, o olhar dele apenas continha acompanhamento; nada mais. Um olhar que não entendia por que tantos adjetivos eu colocava em mim e no mundo. Às vezes, me causava tanto agonia que eu tentava fazê-lo cometer algum julgamento, mas sempre obtive insucessos. Até as palavras saiam da boca dele diferente de quando eu as pronunciava. O “filho da puta” que ele dizia era tão diferente do meu. Tanto em expressão quando em dicção. E é uma situação tão estranha porque ele sabe muitas coisas de mim e eu nada dele. Com certeza, ele já ouviu muito. Sendo negro, na nossa sociedade racista. Ele em meio a tanta luta, desenvolveu esse poder quase inalcançável de empatia. E como ele me disse, exercita isso todos os dias.

Acabou meu texto. Já o julgou? Toda minha experiência de vida, o porquê que eu escrevi isso, você não sabe. Sei que é inevitável, mesmo assim. Espero que algum pedaço do que eu tento aprender tenha feito sentido. Se me julgares mal, vou tentar não lhe julgar de volta.

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Ricardo Santos

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Jornalista formado pela UFRGS. 22 anos.