Pressa

Eu me lembrava, há pouco, uma crônica de João do Rio do início do século passado. Intitulava-se “A pressa de acabar”. Em 1900 e sei lá, o jornalista já registrava o chamado homem cinematográfico, o sujeito que “acorda pela manhã desejando acabar com várias coisas e deita-se à noite pretendendo acabar com outras tantas”. Parece tão atual.

Não faz muito tempo eu descobri um problema que advém dessa tal pressa. A ansiedade. Bastante na moda hoje em dia, mas que eu acreditava ser absurdamente distante da minha realidade. Não era. Veio e veio uniformizada de suas crises e ataque de pânico. Então, eu percebi que minha vida e rotina pareciam estar avançadas no controle remoto. Também, uma dificuldade agoniante de parar. É, parar. Fechar os olhos, não se mexer, não pensar. Seja por 5 ou 10 minutos. A gente acredita ser fácil fazer isso porque nunca tenta, ou porque acha que desperdiçaria minutos para “acabar” algo.

Talvez algumas pessoas já estejam se reconhecendo aqui. Pra quem nunca teve uma crise de ansiedade, eu explico. Imagine você, pessoa segura de si, ao se deparar com uma situação estressante. Você conta até 10 e encara, numa boa. Quem sofre de ansiedade, conta 1 e lembra do que vai fazer amanhã. Conta 2 e vem a tona a briga com os pais. Em 3 e 4, uma tarefa da faculdade/trabalho. Em 8, tudo o que você poderia estar fazendo. Em 9, tudo junto. E não chegamos a 10. O corpo não aguenta o caos mental.

É mais ou menos isso. Assim que eu comecei a entender o problema, também descobri a quantidade enorme de pessoas que sofrem com o mesmo problema e alguns motivos pra isso. O tempo é um inimigo abstrato. Nossos inimigos do presente são todos abstratos. O tempo, a briga, a conta, o prazo. Nosso inimigo não é algo a ser batido e sim controlado.

Descobrir esse anti-herói (melhor termo que inimigo) chamado ansiedade me abriu os olhos para o quanto a gente tem pressa. Para tudo. Para acabar tudo. Esquecendo, às vezes, de admirar um céu, sentir uma brisa, sentir um cheiro. Nem que seja por 10 minutos, para depois voltar a acabar tudo outra vez.

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