A angústia dos millennials

Pessoas mais velhas costumam dizer que os jovens, os millennials, são pessoas que querem tudo na hora, que não têm paciência, que não sabem esperar.

Sim, nós somos assim.

Somos porque não podemos ser de outra maneira. Somos porque todos os dias uma enxurrada de informações é jogada em nossas caras, como nunca antes aconteceu em nenhuma geração. Somos porque não temos tempo, não temos como competir se não for de outro jeito.

As gerações passadas, ao chegar nos 20 e tantos e 30 e poucos, já estavam com a vida resolvida: tinham emprego geralmente estável, estavam casados, tinham filhos, casa própria e até carro. Viviam suas vidas em paz, sem muita pressa, se informando pelo rádio, pelo jornal e, mais tarde, pela televisão.

A Geração Y não vive nesse mesmo mundo, porque ele mudou. Hoje, saímos da faculdade aos 20 e poucos e para conseguir um emprego relativamente bom precisamos ter dezenas de cursos, vivências no exterior, fazer trabalho voluntário, falar 10 idiomas fluentemente, ter opiniões sobre tudo — como não sabemos sobre o terrorismo do Boko Haram na Nigéria? Sobre os ataques raciais em Dallas? Sobre os motivos que levaram ao Brexit? Sobre as maracutaias fiscais do Messi? Sobre a Sonda Juno que chegou à órbita de Júpiter? Sobre a mais nova série da Netflix? Sobre o Marcelo Adnet que foi visto beijando outra mulher? Sobre o meme com o funk “Malandramente”?.

Nós precisamos ser especialistas em tudo — e acabamos não sendo em nada, não temos tempo para nos aprofundarmos em nenhum tema específico. Mas, ainda assim, precisamos ter uma profissão. E precisamos acertar de cara, logo ao sair do Ensino Médio, aos 17 anos. Porque, se aos 20 e poucos descobrirmos que não era bem aquilo que queríamos para a nossa vida, não temos mais tempo para mudar, estamos velhos demais para recomeçar, de acordo com a sociedade. E as novas gerações vêm aí, mais conectadas e espertas que nós, como vamos competir com eles?

Como você, geração passada, quer que nós não tenhamos pressa? E como você quer que estejamos estáveis financeiramente, profissionalmente e pessoalmente antes dos 30? Me explica, por favor.

Nós estamos doentes mentalmente. Nós temos crises de ansiedade e não sabemos o porquê. Nós nos sentimos perdidos e sozinhos e não podemos expressar isso, porque é sinal de fraqueza e “quem quer vencer na vida” não pode ser assim. Nós precisamos de terapia e não temos tempo para fazer, não temos dinheiro para pagar por remédios ansiolíticos e antidepressivos, porque temos de arcar com as prestações de apartamentos de 50m² que custam mais de 400 mil reais — quando não ganhamos nem perto de podermos pagar por isso.

Mas temos de “vencer”, porque “na nossa idade, você já estava com a vida feita”. E nós, geração tão apressada, não podemos ter opinião sobre isso, porque somos muito jovens e não sabemos do que estamos falando, temos de ouvir os mais velhos, as “vozes da experiência”.

Eu não pedi para viver nessa sociedade, ela me deixa doente.

Eu não quero “vencer”, eu só quero ter o privilégio de ser como sua geração, de fazer o Raul Seixas e ser uma metamorfose ambulante, sem opiniões formadas sobre tudo.

Pare de cagar-regra. Você, geração anterior, ainda não percebeu que o mundo mudou — alguns dizem que evoluiu — , e não sabe o vazio que existe em nós enquanto tentamos ser o que vocês esperam que sejamos.

Karina Rodrigues de Moura

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Analista de UX, jornalista, nerd, feminista. Futura companion do Doctor. Lufa-Lufa com orgulho. Humana dos gatos Safira, Ramon, Fumaça e Luna.