Desde quando se tornou normal rir da desgraça alheia?

Eu sou feminista interseccional.
Eu apoio a luta de mulheres: mulheres trans, mulheres negras, mulheres gordas, mulheres com necessidades especiais. Eu apoio mulheres, todas elas.
Em um mundo onde a cultura do estupro é normalizada, onde mulheres sofrem as mais diversas mazelas criadas pela sociedade patriarcal, onde há diversos níveis e recortes de agressões, eu não consigo e não posso me calar.
Por exemplo, eu sei que uma negra é mais agredida física e verbalmente que uma branca — porque, além de mulher, ela é negra, então ela sofre por conta do machismo e do racismo. Se essa negra for lésbica ou bissexual, ela sofre ainda mais por conta da lesbofobia ou da bifobia. Se for gorda, sofre ainda mais por conta da gordofobia. E se for trans, sofre ainda mais com a transfobia. Ficou claro o que significam os recortes que o feminismo interseccional tanto fala?

E justamente por enxergar que nem tudo é preto no branco, nem tudo é definitivo, nem todas as agressões são iguais e nem tudo é simples, também não consigo rir agressões e problemas sofridos por homens.
Eu não consigo rir que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Não vejo graça nisso, porque sei que homens negros — sejam eles agressores e estupradores ou não, isso não vem ao caso nesse momento — tem quase quatro vezes mais chances de ser assassinados que homens brancos. Se isso não é certo, por que seria engraçado?

Digo tudo isso porque hoje vi em minha timeline a publicação abaixo:

Vi mulheres rindo que os homens não sabem lavar o próprio pênis e, por isso, precisam amputá-lo. Mulheres dizendo que eles falam que a vagina é fedida e suja, então que aguentem. Será que elas leram o seguinte parágrafo: “Só no Maranhão, segundo Nardi, um caso novo surge a cada 16 dias, sendo mais comum em homens com mais de 40 anos idade, de baixa renda, que não realizaram circuncisão e não realizam a higiene íntima com frequência e de modo correto. Assim, as complicações surgem quando há o aparecimento de feridas e crescimento de células cancerosas que começar a se reproduzir.”

Como eu vou rir que homens de baixa renda, pessoas sem informação, perdem o pênis porque não sabem como lavá-lo corretamente? Não consigo ver graça, exceto desvio de caráter de quem o faz.

Será que essas mesmas pessoas riem do dado da Sociedade Brasileira de Mastologia, que mostra que a mortalidade por câncer de mama em mulheres é 11 vezes maior em áreas pobres do país, em comparação com regiões mais ricas?!

Só gostaria de saber.

Ver pessoas morrendo por ignorância, por falta de informação, por falta de serviços básicos de saúde, nunca vai me entreter — sejam homens ou mulheres.

Que lutemos por uma sociedade mais justa e igualitária para todas as mulheres, mas que isso não nos torne insensíveis às questões humanas de uma maneira geral.

Karina Rodrigues de Moura

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