O que a adolescente estuprada no Rio por 33 homens, Amber Heard e eu temos em comum?

Todo mundo ouviu falar da história horripilante que aconteceu no Rio de Janeiro na semana passada, em que uma adolescente de 16 anos foi estuprada por, no mínimo, 33 homens. O tópico chamou a atenção da mídia internacional, que apontou a cultura do estupro no Brasil como uma das principais causas para um fato tão trágico e nojento quanto esse.

Muita gente também ouviu falar que Johnny Depp, um dos queridinhos de Hollywood (e até então meu ator favorito desde a infância) foi acusado pela agora ex-esposa, Amber Heard, de agredí-la fisicamente, batendo com um iPhone em seu rosto. Ela também alegou que ele já foi violento outras vezes durante o casamento.

Já a minha história, ninguém sabe. Se existe um “nível de violência”, ela não chega nem perto desses dois outros fatos que citei, mas vamos lá.
Há dois anos, viajei a trabalho com um ex-colega que recentemente voltou a trabalhar no mesmo lugar em que eu trabalho. Em um dado momento, ele gritou comigo em frente a um grande número de pessoas, e como eu não tenho sangue de barata, gritei de volta. Terminamos e o que estávamos fazendo e fomos à pousada em que estávamos hospedados. Quando chegamos, ele pediu para eu entrar no quarto dele, pois queria conversar. Nossos quartos ficavam um ao lado do outro. Eu entrei e ele trancou a porta. No mesmo momento, começou a dizer que ele já foi muito nervoso, que já até arremessou uma carteira contra uma professora. Oi? É claro que me senti intimidada, ele tremia. Achei que iria apanhar ali mesmo. Tentei encerrar a conversa o mais rápido que pude, dizendo que estava tudo bem… saí do quarto dele e fui ao meu quarto, com medo.
Até ontem, só tinha contado isso para pessoas próximas, como meus pais e namorado. Não falei nada no trabalho, não comentei isso com mais ninguém.

Agora você me pergunta, por que o título desse texto?
Porque todas nós fomos desacreditadas. Todas nós ouvimos ou vimos na expressão das pessoas um “mas será que é verdade?”. “Será que isso aconteceu”?
O meu caso, como eu já disse, nem se compara ao das duas. Mas eu sabia que, se contasse na empresa que isso aconteceu, eu não seria apoiada. Nada aconteceria. E eu, como elo mais fraco, como uma simples produtora, poderia até ser a pessoa prejudicada. Então me silenciei. Eu não tinha provas, então tive que conviver com isso por todo esse tempo.

Já a adolescente e a atriz Amber Heard estão sofrendo uma enxurrada de desacreditações e culpabilizações. Nas ruas e nas redes sociais, quando se trata do caso do estupro, muita gente diz que ela fazia parte de facções criminosas, que era viciada em drogas, que aos 16 já tinha um filho e que procurou por isso. Tem gente até que afirma que ela fez uma orgia com todos esses homens e, ao ver o vídeo publicado na internet, se arrependeu e disse que foi estuprada. É o cúmulo do absurdo! Até mesmo o delegado que deveria apurar o caso, estava questionando a versão da vítima, e acabou sendo afastado do caso.

E Amber Heard, por ousar apontar a agressão do ator Johnny Depp, está sendo acusada de dar o golpe do baú, de golpista e mentirosa. A própria ex-esposa do ator, Vanessa Paradis, veio em defesa dele, dizendo que ele sempre foi amável e um bom marido. OK, ele pode até ter sido assim com ela, mas isso não o isenta de poder ter agredido a Amber.
Até mesmo o jornal britânico Daily Mail fez um artigo questionando a atriz por ela estar sorrindo ao lado de amigos. Como se após ser agredida, ela devesse apenas chorar e lamentar a vida. A polícia está apurando o caso e ainda devem acontecer novos capítulos dessa novela, mas agora me respondam: o que ela ganharia com tudo isso? Amber perdeu o papel de Rainha Mera no filme Aquaman depois de toda essa confusão. Um papel importante. Ela provavelmente sabia que o nome dela não tem 1% da força do nome de Depp em Hollywood, então por que acusá-lo se não fosse verdade?

Além das mulheres vítimas das mais diversas agressões serem desacreditadas e culpabilizadas, muitas vezes ainda tem de conviver com a seguinte pergunta, vinda de pessoas geralmente próximas ou que deveriam defendê-las: “você tem certeza que vai querer destruir a vida do homem x por causa disso? Ele tem família, ele é de bem”.
Pois é.
Mulheres que tiveram suas vidas destruídas por esses crápulas ainda precisam ouvir esse tipo de coisa.

Eu demorei muito tempo a falar sobre o meu caso, por medo de não acreditarem em mim e porque eu tinha absoluta certeza que ouviria isso.
Mas eu cansei e vou falar, sim. Vou falar porque não podemos nos calar, porque o machismo na nossa sociedade é latente e ele está provado em todos esses casos.

Ontem, quando resolvi me abrir para três colegas de trabalho, tive de ouvir da mais próxima a mim que ela gostava (gosta) do meu agressor psicológico. Ou seja, a pessoa ali que eu mais achava que ficaria ao meu lado, ficou ao lado dele.

E aí, ao lado de quem você acha que o restante da sociedade costuma ficar?

Karina Rodrigues de Moura

Written by

Analista de UX, jornalista, nerd, feminista. Futura companion do Doctor. Lufa-Lufa com orgulho. Humana dos gatos Safira, Ramon, Fumaça e Luna.