Memória que chora: uma lembrança do Museu Nacional
Estou arrasada com o incêndio que destruiu a maior parte do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
Revendo as fotos da última visita que fiz, senti a estranha dor da perda coletiva.
A propósito de perdas, nós, brasileiros, temos passado por muitas, a cada dia uma maior do que a outra. De direitos e de defensores de direitos, de democracia, líderes, recursos naturais etc. A lista é imensa. Mas as imagens do Museu em chamas produziram em mim um sobressalto diferente. Porque o fogo que consome até as cinzas representa o fim. O não retorno. A impossibilidade de corrigir um mal feito. Uma guerra perdida.
Qualquer museu é personagem importante da história de um país e deve ser prestigiado e protegido. Para mim há algo mais: foi o primeiro — acho que o único — museu no qual meus pais me levaram. Ambos sem instrução, entenderam a importância de levar a única filha para ver as maravilhas de um mundo acessível apenas por seus registros históricos. Lembro-me bem daquele dia, há quase quarenta anos.
O museu estava cheio e fazia muito calor no Rio. Quando entramos na sala onde uma múmia estava exposta, meu pai sentiu-se mal. Por alguns anos acreditei na versão que minha mãe me deu, de que meu pai havia saído da sala por medo de que a múmia se levantasse fosse atrás dele. O que me tornava uma menina muito corajosa, pois além de não me afastar, mantive os olhos grudados no pouco que estava exposto e ainda tentei imaginar como teria sido aquela pessoa em vida. Talvez o meu interesse pela História tenha surgido ali, num exercício de retorno ao passado sobre as asas da imaginação.
Há poucos anos lá estive pela última vez, com meus filhos e meu sobrinho. O museu parecia muito bem organizado, sinalização impecável, muita gente trabalhando. Dessa vez, o item que maior interesse me despertou não foi uma múmia, mas a Luzia. Ou melhor, seus persistentes fragmentos. Naquele momento, tentei provocar nos três a mesma perplexidade da minha infância diante do mistério do passado e quis mostrar a eles que seria divertido recriar uma vida real no mundo da fantasia. Não deu certo, nem ligaram para o que aventei sobre a moça da qual sabemos tão pouco. Os primos apenas se divertiram entre eles com algumas piadas infantis.
A expectativa frustrada de reviver uma emoção da infância logo cedeu espaço à razão: como disputar os corações de três meninos e fazê-los admirar uma vida humana breve, ordinária e tão simples como a que imaginamos ter sido a da Luzia quando comparada com a complexidade contemporânea, se em outro salão havia um esqueleto de dinossauro? E, ainda mais marcante, como competir com a possibilidade de tocar em um marciano?
