Ficar pensando não adianta

O outono era sua estação preterida do ano. A transição tão brusca do calor e das cores do verão para o acinzentado e tons pastéis sem fim fazia com que anualmente ela sentisse algum tipo subjetivo de tristeza interior, e este ano não estava sendo diferente.

Sentou-se em um banco do parque, não sem antes chacoalhar as malditas folhas alaranjadas. Maldita também a tal estação que as fazia abandonarem o conforto de suas árvores para depositarem-se em todos os lugares. Olhou para livro em seu colo e então olhou para o chão, onde as folhas de várias tonalidades formavam um mosaico. Quase achou a figura bonita, mas era contra os seus princípios enxergar beleza numa época tão melancólica.

Dera o azar de viver sua vida adulta em tempos estranhos. Desde que o mundo é mundo, passam-se períodos conturbados e períodos em que as conturbações se limitam a um ou outro canto. Infelizmente, estava vivendo em um período conturbado em todos os cantos. Seu futuro era incerto, assim como o de todos os jovens de sua geração.

Mas não, a sensação de que todos estavam condenados não lhe gerava conforto, ela não era esse tipo de pessoa. Essa sensação constante de estar caminhando para um futuro pior do que o já ruim presente lhe causava uma ansiedade que subia queimando suas vísceras até sua garganta, onde algo estava preso fazia tempo. Não sabia se um vômito agonizante ou um grito sufocado, mas uma coisa era certa: Algo ali queria se libertar.

Não só ali.

Por todas as esquinas fétidas do centro da cidade, pelo transporte público lotado, nas festinhas onde os jovens iam usar drogas sintéticas para esquecer dos problemas… A sensação coletiva era de que algo estava faltando. Nenhuma diversão era plena, nenhum porre efetivo o suficiente. Alguma coisa precisava sair para que a existência parecesse voltar a ter sentido.

Pensando sobre isso, ainda no banco da praça, indagou-se sobre esse sentimento intermitente: Seria apenas uma coisa inerente à ser adulto e que todos os bilhões de pessoas do mundo já sentiram quando tiveram que executar a difícil transição da adolescência para a maturidade? Estaria ela se sentindo especial — de maneira negativa — por nada?

Não. Não era possível que todas as pessoas do mundo também estivessem aprisionadas naquele sentimento interno de insatisfação e mediocridade.

Pelo menos é o que ela esperava, ou do contrário toda a existência humana e coisas boas que já havia lido ou assistido em filmes era apenas uma grande farsa elaborada para dar às pessoas um pouco de sentido.

Esses pensamentos irritaram-na, e o que deveria ter sido uma leitura relaxante no parque transformou-se em um pequeno filete de lágrimas caindo de cada um de seus olhos. Não sabia exatamente porquê chorava. Mas era bom. Era bom se sentir viva, saber que os milhões de pensamentos que cruzavam sua mente podiam ser traduzidos em todo tipo de sensação física. Lambeu uma lágrima que escorria próxima à sua boca e sentido aquele gosto de mar esboçou um sorriso involuntário.

Não havia nada que ela pudesse fazer.

Levantou do banco — que agora já possuía mais algumas folhas recém-caídas — e voltou para casa, sem pensar em nada específico.

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